domingo, 30 de janeiro de 2022

Dia estranho e doído

 


E hoje para comemorar os seus 76 anos colocamos no fogão aquela panela grande onde você fazia arroz para muita gente. A panela sinalizava que a família ia se juntar.

Compramos bolo porque não tínhamos o seu.

Fizemos bolinho de chuva como você faria num dia chuvoso como hoje, coberto com muito açúcar e canela para agradar, especialmente aos netos.

Sim, rememoramos e come-moramos: mesa farta, todos reunidos, conversamos alto, falamos todos de uma vez. Impacientes e falantes, fizemos planos.

Sentimos a sua presença em tantos detalhes.

30 de janeiro, pela segunda vez, passou doído sentindo a sua falta.

Dia estranho como diz a poesia:

“os dias têm sido estranhos

desde que você foi embora.

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e eu não quero dizer

que você está longe de mim.

quero dizer que eu não vou mais ver você.

nunca mais.

não daquele jeito, não.

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e todo esse tempo depois,

não é do amor

e suas consequências

que eu mais lembro.

é de todo o resto.

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porque em dias como esses

nós cancelaríamos

o som do mundo

com as mãos sobre os ouvidos

e conversaríamos e riríamos

através dessas noites

e dias estranhos.

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todas as palavras,

todas as músicas,

todas as tardes,

todos os olhares,

todos os sorrisos.

⠀

é isso que ficou

e ainda permanece aqui dentro

ecoando gritos tão barulhentos.

⠀

mas é o destino natural das coisas:

o mundo é um gigantesco mar de lama

e uma dessas grandes ondas

levou você embora.

⠀

e mesmo que as águas já não estejam

tão agitadas

eu sei que nem um tsunami

poderia trazer você de volta.

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então eu fico aqui

flutuando pela correnteza

assistindo mais uma noite chegar e partir

enquanto os dias continuam tão

estranhos.”

⠀

- "dias estranhos", do livro "Algo dentro de mim que arde e grita"

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

1.2

 Há um ano e dois meses você se foi.  Deixou um grande vazio por aqui.

Novo ano começa e ainda nos sentimos anestesiados. Foi tudo tão rápido.

Passamos seu aniversário, o meu aniversário e de todos da sua família sem seu bolo, sem o seu sorriso e cuidados.

Passamos  Dia das Mães, órfãos da sua presença tranquilizante.

Veio agora o segundo Natal e  o Ano Novo com seu lugar vazio na mesa e faltou a sua fala que acalentava nosso coração nesta época.

Passamos o ano sem provar da sua comida, do seu café, dos seus doces.

Tantas coisas boas e ruins aconteceram sem que a tivéssemos conosco.

Aqui vamos te encontrando nas recordações, nos pensamentos, nos lugares em que íamos juntos,  nas datas comemorativas, em alguns suvenires, nas plantas e flores que suas mãos plantaram, nos cheiros, nas orações.

Seguimos saudosos.





5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...