terça-feira, 2 de novembro de 2021

E aqui tem sido finados todos os dias.

 


 


Primeiro dia de Finados sem ela, a minha mãe, mas aqui tem sido finados todos os dias desde que ela se foi.

Todos já sofremos perdas irreparáveis, doloridas, marcantes, que nos deixam desolados e entristecidos, mas perder um ente amado para a pandemia é algo que nos deixa amortecidos. Tentar entender tudo o que aconteceu parece não caber em nossas mentes e corações.

Fragilizados pelo distanciamento, buscamos respostas que não encontramos, procuramos ritualizar a falta do ritual, para acomodar a tristeza que craveja nossos sentimentos.

Isolados devido à doença, nos sentimos sozinhos, feridos, adoecidos da alma.

Infectados da dor, da culpa, do desassossego nos faltam abraços, nos falta colo.

Colonizados pelo remorso falta-nos resistência para sair do luto que nos aprisiona.

A separação na circunstância da Covid é doída, doida, duradoura. Não deixa distrair-nos da sua presença.

Minha mãe se foi e nos deixou em pedaços. A cada dia nos levantamos, recolhemos nossos pedaços e saímos por nossas estradas.

Choramos, lamentamos, refletimos, caímos, levantamos. 

Oramos, gritamos, pranteamos, queixamos, entendemos.

Nos apegamos à lembrança e conselhos. Vemos fotos e vídeos para recordarmos de quem fomos junto a ela, pois já não somos mais os mesmos.

Enlutados, tentamos nos distrair e encontrar beleza em nossos dias e encontros.

Outro dia  encontrei  estas palavras que cuidaram do meu coração e  acordaram em mim o jeito conselheiro da minha mãe. Acredito que nos momentos de desânimo ela nos falaria isso:

"Promete que vai se cuidar quando eu não estiver mais por perto, que vai guardar minhas palavras numa caixinha secreta. Promete que não vai desistir dos seus sonhos, que vai refazer muitos planos e não vai desistir de você. Promete não me esquecer, que vai me lembrar num dia de chuva ou quando a noite silenciar o dia. Promete não se abandonar nessa estrada, que vai se dar colo quando vier o cansaço e não vai deixar de sorrir. Me guarda no seu coração, leva o meu carinho pra rua. Me ajeito em qualquer cantinho. Só não me esqueça numa gaveta escura." (Eunice Ramos).

 

Sim, eu prometo! Prometo tentar e conseguir.

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...