1.10 Eternizando as memórias
Hoje resolvi fazer um bolo, desses pré-prontos porque minhas habilidades na cozinha são bem rasas. E fazendo lembrei que era dia 7 e dia 7 foi o dia da nossa despedida. Um dia circulado na folhinha do calendário, enigmático, doído.
Sempre em nossas lembranças, a saudade fica cada dia mais apertada.
E quando a lembrança adormece para um de nós, sempre tem um post contando algo, uma foto, uma menção de alguém da nossa família e o buraquinho no coração dá sinais.
Dia desses a lembrança veio da neta Raphaela, que postou a memória que lhe vem quando prepara o arroz. Ao ver o caldo, lembra das manhãs na casa da vó Nair, assistindo desenho animado e com o prato de caldinho de arroz na mão.
A lembrança da Rapha puxou a minha vivência de filha. Quando minha mãe fazia carne de panela, preparava para mim uma sopa com o caldo da carne misturado com farinha de milho. Um creme substancioso, cujo paladar me tele-transporta para o passado.
As memórias gustativas trazem de volta a presença da minha mãe ausente. Sinto sua presença no gosto do mamão , da pitanga, da laranja, da ameixa, frutas que foram plantadas por suas mãos.
Há outras formas de eternizar a memória. Quando nos desfizemos das roupas da minha mãe, um pedido do meu pai foi que deixássemos uma peça de roupa dela pendurada. Doía-lhe ver sua falta representada num guarda-roupa despido das suas vestimentas.
E ali no guarda-roupa, minha mãe está simbolizada, representada por um vestido laranja e um terninho azul marinho que podemos cheirar, abraçar, beijar e com isso sentir-lhe, cada um de um jeito.
E tem ainda sua coleção de receitas, com sua caligrafia, seus recortes, suas preferências. Quando mexo nelas sei que é uma forma de reverenciar sua história, sua memória e sinto um afago no peito, uma candura na alma. Choro a saudade e agradeço por ter compartilhado a companhia por tantos anos.

