quarta-feira, 8 de julho de 2026

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho



Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro para sempre.”

Pesquisando mais a fundo descobri que essa troca de células entre mãe e bebê chama-se microquimerismo.

Sim, células da mãe podem permanecer no organismo dos filhos por muitos anos e as dos filhos podem se aninhar nas da mãe por décadas. Impressionante!

Imediatamente esses escritos foram se construindo na minha mente. Uma enxurrada de lembranças da minha profunda história com minha mãe: contato, tato, cheiros, conversas, contradições, construções, combinações de tantos momentos.

A ligação forte, visceral, penetrante poderia ser simplesmente explicada por questões afetivas. Carregar um filho no corpo é uma sobrecarga que guardará transformações  físicas imensas: hormonais, cardíacas, digestivas, respiratórias, ósseas, posturais e muito mais. Todas essas mudanças somadas às informações emocionais envolvidas ficarão registradas para sempre. Um que vira dois.

Conhecendo de perto o papel de filha e mãe, consigo sentir essa conexão, que muitas vezes, deixa de encontrar palavras capazes de explicá-la. Busco respostas na natureza,  nos detalhes,  na alma, em Deus,   que cuidam de fazer algo maior: manter a simbiose física e emocional  que alimenta, cura, repara e restaura o espírito.

Vejo o amor filial como um vínculo  consistente, poderoso e indestrutível. Um laço que jamais será desfeito, que se constrói no cotidiano recebimento de afeto, cuidado, proteção. É sobre ter origem e não ser ou estar só nessa imensidão chamada vida.

Já o amor materno é um sentimento multifacetado,  que  junta processos neurológicos, afetivos, reunindo emoção, psicologia e cultura. É apego e soltura, proteção e lançamento, revezamento entre torcida e reza. Difícil explicar o inexplicável.

Há ainda toda a dimensão espiritual que transcende qualquer medida ou definição.

Este exercício de relembrar fatos da minha vida com minha mãe, de reunir ideias  tiradas das experiências guiam meus dias esvaziados do seu olhar intensamente compreensivo  que me preenchia e aconchegava me fazendo sentir seu cuidado onde eu estivesse e  hoje transbordam saudade,  que lanço em forma de palavras ‘amorizadas’.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

5.1- Amor não morre, vira laço.

 


Quando perdemos alguém vital à nossa existência acordamos diariamente com uma sensação de falta, vazio. O mundo muda. Nossa visão muda.

Saber que não haverá mais aquele olhar terno, único; aquela voz cheia de amor; e aquele colo que te esperava a qualquer hora; aquela segurança invisível é dor avassaladora.

E, a cada dia levantamos incompletos e obrigados a recalcular a rota, seguindo a trajetória e levando a sua presença em nossa alma e coração.

Recalculando o caminho, embrulhamos a dor da saudade e levamos  conosco o amor permanecido em nós, que fica vivo numa conexão além vida.

Os amores desencarnados permanecem em nós, especialmente quando desejamos que fiquem, quando fazemos questão de lembrar e criar maneiras de reforçar sua importância.

E foi assim, que o neto Felipe leva no bolso, o lenço da avó Nair, na formatura da irmã, Ana Júlia. Homenagem terna, amorosa e repleta de simbolismo.

Além de desejar e sentir sua presença invisível, ter com ele,  a sua  representação trazendo-a no bolso, coladinha, como se abraçasse  seu corpo, é gesto que honra a vida da avó.

E assim, aqui, cada um de nós segue na missão de honrar seu nome, levando adiante o seu legado. Sabemos que o amor não morre, vira laço.

sábado, 8 de novembro de 2025

5.0 Sabor de saudade



Ao lembrar da data que comemora 5 anos da sua partida, uma história vivida pela minha sobrinha.

Uma mordida num pedaço de torta de frango e um mundo de saudades saliva a boca da moça que só queria naquele momento saciar a sua fome.

O simples pedaço de torta foi capaz de mexer com suas emoções de uma vida inteira, que soma 27 anos.

O sabor da saudade atravessa o lanche e foi impossível comer a fatia sem que um nó se fizesse em sua garganta e uma lágrima descesse pelo seu rosto.

O gosto de cada elemento combinado em sua boca a reportou ao tempo da infância, em que a avó preparava a tal torta para levar nas viagens anuais à Aparecida do Norte.

A torta tem agora gosto de sono quebrado com os sustos das freadas do motorista,  chacoalhadas na poltrona pouco confortável durante a madrugada, peregrinação às igrejas e praças, orações de agradecimentos e pedidos,  lanches socializados entre os amigos e compras de suvenires na feira e barracas de rua.

E então, as lembranças se juntam e ela chama o pai para desfrutar do gosto que aperta o peito, ao mesmo tempo que parece aproximar daquela que partiu há 5 anos.

Nessa hora bateu na moça uma vontade de subir a rua, andar 3 quarteirões, bater na porta e ser atendida por aquele sorriso doce e voz calma, mas isso só aconteceu mesmo na força dos seus pensamentos. Lembrou que não seria possível realizar o desejo de rever aquela cuja ausência sustenta um vazio enorme no peito e sangra vez ou outra, como sangrava agora.

 O amor ficou sem endereço?

Às vezes procura olhando pro céu, outras depositando flores no gramado do seu túmulo, em outras tocando seus objetos ou  fazendo as coisas que a representam.

Hoje ela encontrou seu endereço num pedaço de torta de frango...

 

4.11 Ensinamentos genuínos

 


Com quem mais minha filha aprenderia a fazer biscoito de polvilho na folha da bananeira?

Honrar quem partiu vivendo o que ficou é uma forma de  falar da vida que segue, mesmo quando a saudade ainda pulsa latente.

Por isso, tento fazer das lembranças um lugar que conta do vivido, do amado, do admirado, do que me moldou; sem querer apagar a memória que me traz aqui, hoje.

Por isso escrevo, conto e retrato em palavras,  o vazio de um lugar que nada, nem ninguém consegue ocupar.

Dou licença para a saudade se achegar no café sem a sua companhia, na receita que tento refazer, na roupa que lembra dos dias festivos,  na xícara  que me foi dada de presente, nas fotos saudosas.

E nas lembranças, sem dúvida nenhuma, vem  a gratidão por todo cuidado com a nossa família, sem deixar de citar todo empenho na criação da minha Raphaela e a grandeza da sua  representação para ela.

Detalhes tão sutis, companhia tão profunda, toques  repletos de significância, ensinamentos especialmente genuínos.

E então repito a pergunta inicial:

Com quem mais minha filha aprenderia a fazer biscoito de polvilho na folha da bananeira?

 

 

 

quarta-feira, 9 de julho de 2025

4. 8 Fio do “Para sempre”

 



 

Segundo uma lenda japonesa existe um  fio vermelho do destino,  no qual todas as pessoas estão amarradas pelo dedo mindinho.

Esse  fio vermelho invisível nos levará à outra pessoa com quem faremos história, com quem estamos predestinados.

Penso que assim, os filhos se ligam às suas mães. Numa união indestrutível de sentimentos ficamos ligados para sempre. Não importa o tempo, o lugar ou a circunstância, o caminho já está escrito.

O fio vermelho do “para sempre” liga os filhos às mães até quando elas já se foram deste mundo e vivem lá num lugar chamado eternidade.

Inquebrável, o fio pode ser esticado, encolhido, emaranhado, enlaçado chegando até lá pelos pensamentos, memórias, lembranças, sensações.

Fio vermelho do amor eterno,  da ligação profunda, que faz magia no coração e na mente daqueles para quem o antes, o durante e o depois não se contam com o tempo cronológico.

Todo dia, meu fio vermelho ligado com minha mãe, puxa, estica, embaraça, enlaça e nos conecta pelos pensamentos, memórias, lembranças, e sensações num profundo e significativo encontro.

Neste momento, meu fio vermelho está brilhando em luzes douradas, fazendo faíscas, num encontro de almas que não se distanciarão jamais.

4. 7 Não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza

 



 

Mês passado foi aniversário de 80 anos do meu pai.  Ao olhar para ele, ali em frente à mesa do bolo, consegui identificar dois sentimentos: gratidão misturada com reconhecimento.

Ver aquele rosto magro, fino, cheio das marcas vivas do cansaço  de uma vida difícil permeado por 73 anos de trabalho (sim, ele começou a trabalhar aos 7 anos!) só me fez pedir a Deus que continue enchendo-o da fibra e vitalidade que o sustenta todos os dias, da qual nós filhos, noras e netos nos alimentamos.

Ele conta incansavelmente das tarefas no sítio, colocadas por seu pai, desde menino. E quando crescido mais um pouco, virou  pequeno empreendedor, negociando galinhas, porcos, ovos e tudo mais que pudesse, inclusive a porcentagem do milho que lhe cabia na plantação com  seu pai.

Ao casar encontrou a minha mãe que foi seu esteio sempre.

Franzina, ela sempre foi grande na sua estatura de mulher, mãe, amiga.

E o velho ditado cabe tão bem aqui:  “À frente de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. E com muito sangue, suor,  lágrimas e trabalho, os dois construíram grandezas. E tudo isso não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza. Riqueza que o dinheiro não compra.

E acho bonito que hoje, na ausência da minha mãe; ele reconhece TUDO que ela representou como companheira fiel, dedicada, corajosa, bondosa, trabalhadora, íntegra, consciente, moderada e muito sábia.

E ao colocá-la como centro das suas conquistas, ele a coloca no lugar de onde nunca saiu, onde persistiu, onde fez diferença, onde conseguiu transformar pó em ouro.

E finalizo repetindo:  isso não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza.

 

4. 5 Honrando a minha mãe

 




O dia 7 de cada mês é sempre um dia que lembro da partida da minha mãe. E neste 7 de abril estava em Amsterdam realizando um sonho antigo.

Nem por isso, o dia me passou despercebido.

Logo de manhã acordei e pensei “Hoje é dia 7 e completam 4 anos e 5 meses que estou sem minha mãe. No entanto estou cumprindo uma  recomendação dela.

Explico.

Dias antes da minha mãe falecer, estamos eu, ela e a Rapha em casa. Nós duas com Covid e a Rapha não.

Neste dia percebi que minha mãe estava pior, com a respiração ofegante, muita diarréia, muito debilitada.

Eu e a Rapha deitamos perto dela, fizemos ligações de vídeo para a família tentando animá-la e conversamos bastante.

Não sei porque, mas começamos a falar de viagens, das que eu e a Rapha queríamos fazer no futuro. E ela nos recomendou “ Isso mesmo, aproveitem a vida, façam tudo o que eu não pude fazer”.

Ela falou queixosa, lembrando por todas as dificuldades que passou no casamento, na criação dos filhos, nos trabalhos realizados.

Não contávamos que em dias ela partiria, deixando conosco esta última conversa. Estava  sensível por lembrar de tudo isso e ao mesmo tempo,  feliz por estar realizando esta viagem com minha filha, conhecendo e aprendendo tanto.

E neste dia,  eu vim às lágrimas nas duas visitas que fiz. No Casa da Anne Frank chorei pela história triste,  pelos medos enfrentados, pelos relatos emocionantes do livro-diário, pelas vítimas que não tiveram chance de sobreviver. Era tão intenso estão pisando naquele chão, tocando aquelas paredes...

No Museu Van Gogh chorei pela alegria de estar ali vendo tão de perto cada pincelada que compunha suas obras. Chorei pelas boas lembranças de tantos projetos que coordenei enquanto diretora de escola trazendo vida às suas obras através da sensibilidade dos estudantes.

É, só eu e a Rapha sabemos  significado desta viagem.




5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...