quarta-feira, 9 de julho de 2025

4. 8 Fio do “Para sempre”

 



 

Segundo uma lenda japonesa existe um  fio vermelho do destino,  no qual todas as pessoas estão amarradas pelo dedo mindinho.

Esse  fio vermelho invisível nos levará à outra pessoa com quem faremos história, com quem estamos predestinados.

Penso que assim, os filhos se ligam às suas mães. Numa união indestrutível de sentimentos ficamos ligados para sempre. Não importa o tempo, o lugar ou a circunstância, o caminho já está escrito.

O fio vermelho do “para sempre” liga os filhos às mães até quando elas já se foram deste mundo e vivem lá num lugar chamado eternidade.

Inquebrável, o fio pode ser esticado, encolhido, emaranhado, enlaçado chegando até lá pelos pensamentos, memórias, lembranças, sensações.

Fio vermelho do amor eterno,  da ligação profunda, que faz magia no coração e na mente daqueles para quem o antes, o durante e o depois não se contam com o tempo cronológico.

Todo dia, meu fio vermelho ligado com minha mãe, puxa, estica, embaraça, enlaça e nos conecta pelos pensamentos, memórias, lembranças, e sensações num profundo e significativo encontro.

Neste momento, meu fio vermelho está brilhando em luzes douradas, fazendo faíscas, num encontro de almas que não se distanciarão jamais.

4. 7 Não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza

 



 

Mês passado foi aniversário de 80 anos do meu pai.  Ao olhar para ele, ali em frente à mesa do bolo, consegui identificar dois sentimentos: gratidão misturada com reconhecimento.

Ver aquele rosto magro, fino, cheio das marcas vivas do cansaço  de uma vida difícil permeado por 73 anos de trabalho (sim, ele começou a trabalhar aos 7 anos!) só me fez pedir a Deus que continue enchendo-o da fibra e vitalidade que o sustenta todos os dias, da qual nós filhos, noras e netos nos alimentamos.

Ele conta incansavelmente das tarefas no sítio, colocadas por seu pai, desde menino. E quando crescido mais um pouco, virou  pequeno empreendedor, negociando galinhas, porcos, ovos e tudo mais que pudesse, inclusive a porcentagem do milho que lhe cabia na plantação com  seu pai.

Ao casar encontrou a minha mãe que foi seu esteio sempre.

Franzina, ela sempre foi grande na sua estatura de mulher, mãe, amiga.

E o velho ditado cabe tão bem aqui:  “À frente de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. E com muito sangue, suor,  lágrimas e trabalho, os dois construíram grandezas. E tudo isso não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza. Riqueza que o dinheiro não compra.

E acho bonito que hoje, na ausência da minha mãe; ele reconhece TUDO que ela representou como companheira fiel, dedicada, corajosa, bondosa, trabalhadora, íntegra, consciente, moderada e muito sábia.

E ao colocá-la como centro das suas conquistas, ele a coloca no lugar de onde nunca saiu, onde persistiu, onde fez diferença, onde conseguiu transformar pó em ouro.

E finalizo repetindo:  isso não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza.

 

4. 5 Honrando a minha mãe

 




O dia 7 de cada mês é sempre um dia que lembro da partida da minha mãe. E neste 7 de abril estava em Amsterdam realizando um sonho antigo.

Nem por isso, o dia me passou despercebido.

Logo de manhã acordei e pensei “Hoje é dia 7 e completam 4 anos e 5 meses que estou sem minha mãe. No entanto estou cumprindo uma  recomendação dela.

Explico.

Dias antes da minha mãe falecer, estamos eu, ela e a Rapha em casa. Nós duas com Covid e a Rapha não.

Neste dia percebi que minha mãe estava pior, com a respiração ofegante, muita diarréia, muito debilitada.

Eu e a Rapha deitamos perto dela, fizemos ligações de vídeo para a família tentando animá-la e conversamos bastante.

Não sei porque, mas começamos a falar de viagens, das que eu e a Rapha queríamos fazer no futuro. E ela nos recomendou “ Isso mesmo, aproveitem a vida, façam tudo o que eu não pude fazer”.

Ela falou queixosa, lembrando por todas as dificuldades que passou no casamento, na criação dos filhos, nos trabalhos realizados.

Não contávamos que em dias ela partiria, deixando conosco esta última conversa. Estava  sensível por lembrar de tudo isso e ao mesmo tempo,  feliz por estar realizando esta viagem com minha filha, conhecendo e aprendendo tanto.

E neste dia,  eu vim às lágrimas nas duas visitas que fiz. No Casa da Anne Frank chorei pela história triste,  pelos medos enfrentados, pelos relatos emocionantes do livro-diário, pelas vítimas que não tiveram chance de sobreviver. Era tão intenso estão pisando naquele chão, tocando aquelas paredes...

No Museu Van Gogh chorei pela alegria de estar ali vendo tão de perto cada pincelada que compunha suas obras. Chorei pelas boas lembranças de tantos projetos que coordenei enquanto diretora de escola trazendo vida às suas obras através da sensibilidade dos estudantes.

É, só eu e a Rapha sabemos  significado desta viagem.




4. 6 A lição da árvore

 


Amo árvores e para mim elas são uma lição de vida exponencial. Tenho a mania de ao me defrontar com uma árvore que me chama atenção, compará-la a alguém que conheço, traçando linhas de semelhança. E o encontro vira poesia!

Pensar em cada etapa do seu crescimento, na aceleração silenciosa do brotamento,  na escala de aprofundamento das raízes, na multiplicação das folhas e frutos , na modelagem das flores, nos intervalos das floradas. Extasiante!

Então, penso nas árvores como abrigo. Quantos ínfimos seres habitam um só exemplar? Quanta guarida para quem a procura para ali viver! Quanta biodiversidade numa única espécie! Um ecossistema  para muitas comunidades em interação contínua.

Exposto tudo isso,  falo da árvore que minha mãe simboliza para mim.

Minha mãe foi meu abrigo do ventre até sua partida. Sua sombra me protegeu, mesmo quando eu me distanciei. Seus galhos suportaram o peso das minhas  intempéries. Suas raízes foram força nas minhas indecisões. Seus frutos foram meu alimento desde a concepção.

Enquanto eu crescia, ela, da sua altura me seguia atenta, observadora e silenciosa. 

Sentia tudo, percebia tudo e discreta me acolhia.

Compreendia as minhas fotossínteses.

E eu seguia, segura de mim e do meu esteio...

Agora tenho toda a compreensão que antes me faltava. 

Só dei fruto porque sua ancestralidade me permitiu e suas sementes habitavam meu âmago.

Só sou flor porque sua beleza humana me ensinou a florir.

E são fortes as minhas  raízes porque  sua segurança  foi meu sustento.

Sei de tudo agora: ainda posso descansar sob sua  escultura frondosa.

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...