Feminismo
Minha mãe teve cinco filhos. Eu a única menina. Eu e minha
mãe nesse universo predominantemente masculino, regado a preconceitos e
favorecimentos ao gênero tido como mais forte.
Como obter espaço na família cercada de homens, com um pai
autoritário e machista? Como ter liberdade, se havia uma lista de padrões que devia
seguir? Como pleitear igualdade, sem ser vista como a ovelha negra da família?
Quando criança sempre vi o meu pai ditar regras e minha mãe
acatar. Sempre via ele no comando e minha mãe seguindo atrás. Eu só observava.
Não queria aquilo para mim. Então passei a me espelhar no meu pai. Queria ter
controle como ele. Tomar decisões como ele. Ser livre como ele. Ter força como ele.
Minha mãe era “do lar”,
prendada, ordeira, paciente. Eu sempre contestava e buscava liberdade.
Minha mãe era paciente e eu queria ser guerreira.
Minha mãe sabiamente se calava diante de um conflito e eu tomava
a palavra.
Minha mãe era dona de casa e eu agarrei com unhas e dentes o
meu primeiro emprego para dali construir minha independência.
Não aprendi a costurar, bordar, mas entendia bem de futebol.
Não queria saber das prendas domésticas. Queria estudar para
trabalhar e ter independência do meu pai.
Dias antes de partir, em casa, se lamentou por não ter podido estudar. E disse estar feliz pelos meus estudos e minha carreira.
Uma alavanca que me impulsionou na vida foi o estudo. E isso
ela me incentivou sempre. Talvez para realizar um sonho que não pode realizar.
Estudar para mim não era fácil. Morava na zona rural e precisava de muita força
de vontade para dar conta dos estudos.
Demorou muito para minha mãe encontrar seu lugar e se rebelar contra suas imposições.
Com
o passar dos anos descobri que não era meu pai quem detinha o poder lá em casa.
Era a minha mãe. Quem tinha a força era ela. Ela mantinha-se controlada, tinha persistência diante
das dificuldades, aconselhava e tinha a palavra mais sensata quando estávamos assustados,
nos dava a esperança de dias melhores, recorria à religiosidade dando-nos
exemplo nas horas difíceis, mostrou-nos sua frequente capacidade de se
reinventar tantas vezes, era paciente diante das adversidades e resiliente.
Hoje peço a Deus que me ajudar a cada
dia mais me inspirar na minha mãe tendo leveza em vez de pulso firme, tendo
calma em vez de rapidez, distribuindo palavras mansas em vez de querer ganhar
na força da palavra.






