sábado, 17 de abril de 2021

Jejum de mãe


 

Jejum de mãe

Rosângela Silva

 

Ah como dói a orfandade!! Falta um pedaço daquela que me constituiu, daquela que me  formou, daquela de onde eu vim, primogênita, parida num quarto rústico à luz de uma lamparina.

Perder minha mãe para a COVID desencadeou em mim (nós) muitos sentimentos: culpa, tristeza, medo, revolta, descrença, raiva, intercalando com esperança.

Quando os sintomas começaram a culpa me invadiu e estacionou no meu peito e na minha mente.

No começo da doença da minha mãe com muito medo me aproximo de Deus, faço pedidos, comungo da sua presença da hora que acordo até quando adormecia. A esperança NELE me fazia ter fé na recuperação. Não conseguia imaginar perdê-la.

Um pouco depois com a sua piora, vem a revolta com Deus, a descrença, a raiva: Por quê? Pra quê? Ela sempre foi tão boa, tão prestativa, tão do bem...

Nos seus últimos dias, tudo que eu mais perguntava aos médicos era: “Ela está inconsciente né?” “Ela não está sentindo nada né Doutor?” E nessa ocasião eu já implorava a Deus “Seja feita a sua vontade”. Não queria que ela sofresse, que ela se afligisse por nós, porque sim, do seu leito, certamente ela estaria pensando em nós e na nossa dor.

E ela se foi deixando em mim (nós)  uma saudade imensa. Quantas boas memórias e quanta saudade!! Temos um buraco imenso no coração, uma ferida aberta que sangra a cada lembrança diária. Não somos mais os mesmos porque falta seu amor tranquilo por perto.

Estive pensando porque nessa quaresma não fiz nenhum esforço para jejuar, para me penitenciar, para deixar de lado algo de que gostava. Já estava vivendo o jejum da falta da minha mãe. O mais difícil da minha vida. O jejum que não acaba em 40 dias. Uma orfandade sem fim.

O tempo, santo remédio, certamente vai cuidar de colocar todas essas emoções no seu lugar, mas eu seguirei relembrando, escrevendo, homenageando àquela a quem devo tudo que sou, que tenho, que sonho, que planejo, que conquisto, que insisto, que resisto, porque ela é o MEU TERRITÓRIO SAGRADO, hoje e sempre.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Aniversários em família

 

 


Aniversários em família

Os aniversários em nossa família sempre são oportunidades de estarmos juntos, festejando, comemorando a vida, nosso amor e fraternidade.

Minha mãe sempre foi a primeira convidada da lista. Sua presença era certa, não pensávamos em nos reunir sem a matriarca. Sem a pessoa doce, prestativa, amorosa, conciliadora a festa não podia ser festa.

Pois é. Em 2020 meu aniversário foi comemorado só entre mim e minha filha Raphaela, mas tinha o bolo da minha mãe. O conforto afetivo dela estava presente em forma de bolo.

Em 2021 não tenho ELA, nem seu bolo. Só sua luz e memórias.

O desconsolo é grande. Falta minha mãe! Falta aquela que meu deu a vida. Aquela que me foi morada antes e depois do meu nascimento. Antes me gestou, me guardou, me alimentou e me formou. Depois, foi morada, aconchego, esteio, salvação nos medos, nas dores, nas preocupações.

Minha mãe nos criou sem muitos abraços e beijos. Havia um distanciamento físico entre nós, que veio da sua origem  e educação, mas o amor era revelado sempre, todos os dias através das preocupações, dos conselhos, das palavras firmes e calorosas, da ajuda e disponibilidade, da comida feita com amor, do café quentinho esperando que passássemos na sua casa, do bolo ou outro confeito gostoso a nos esperar, do sim aos nossos pedidos e solicitações.

Hoje meu aniversário em dia de sexta-feira santa.  Um dia sagrado para minha mãe. Dia de jejum. Dia de vigília.

Sexta-feira Santa e pandemia. Isolamento e saudade.

Sexta-feira santa


 

Sexta-feira santa.  Um dia sagrado para minha mãe. Dia de jejum. Dia de vigília.

Com ela aprendemos as orações, a fé em Deus, a crença em Deus pai.

Lembro que ela nesse dia só tomava um café simples, almoçava e jantava. Nada de guloseimas, café da tarde, festejos. Era dia de reclusão.

Aliás, nos 40 dias da quaresma, honrava a tradição e não comia carne às quartas e sextas-feiras. Nós seguíamos juntos seus princípios.

A sexta –feira da Paixão era dia de retiro. Dia de oração. E ela lembrava “ É o dia em que nosso pai morreu, crucificado”. E contava as histórias bíblicas: falava de Judas, falava de Pedro e suas negações a Jesus, de Pôncio Pilatos, de Maria e de Verônica. Detalhava a via crucis com os 14 episódios do  caminho de Jesus até o calvário.

Participamos de muitas procissões do “Senhor Morto”, iluminadas pela Lua cheia, da “veneração da cruz” e os “Sábados da Aleluia”´eram festejados com a “malhação” do Judas.

Através da sua crença e suas histórias religiosas, foi nossa catequista e nos ensinou a religião católica.

Crescemos e por muitas vezes nos dispersamos da vida religiosa. Mas ela não. Dizia não temer a morte e que a fé em Deus a protegia.

No dia que ficou internada, manteve-se firme, não derrubou nenhuma lágrima. Não pude acompanhar seus últimos  momentos, mas creio que se foi em paz, crente que seria acolhida nos braços da Pai Maior.

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...