Jejum de mãe
Rosângela Silva
Ah como dói a orfandade!! Falta um pedaço daquela que me
constituiu, daquela que me formou,
daquela de onde eu vim, primogênita, parida num quarto rústico à luz de uma
lamparina.
Perder minha mãe para a COVID desencadeou em mim (nós) muitos
sentimentos: culpa, tristeza, medo, revolta, descrença, raiva, intercalando com
esperança.
Quando os sintomas começaram a culpa me invadiu e estacionou
no meu peito e na minha mente.
No começo da doença da minha mãe com muito medo me aproximo
de Deus, faço pedidos, comungo da sua presença da hora que acordo até quando
adormecia. A esperança NELE me fazia ter fé na recuperação. Não conseguia
imaginar perdê-la.
Um pouco depois com a sua piora, vem a revolta com Deus, a
descrença, a raiva: Por quê? Pra quê? Ela sempre foi tão boa, tão prestativa,
tão do bem...
Nos seus últimos dias, tudo que eu mais perguntava aos
médicos era: “Ela está inconsciente né?” “Ela não está sentindo nada né Doutor?”
E nessa ocasião eu já implorava a Deus “Seja feita a sua vontade”. Não queria
que ela sofresse, que ela se afligisse por nós, porque sim, do seu leito, certamente
ela estaria pensando em nós e na nossa dor.
E ela se foi deixando em mim (nós) uma saudade imensa. Quantas boas memórias e
quanta saudade!! Temos um buraco imenso no coração, uma ferida aberta que
sangra a cada lembrança diária. Não somos mais os mesmos porque falta seu amor
tranquilo por perto.
Estive pensando porque nessa quaresma não fiz nenhum esforço
para jejuar, para me penitenciar, para deixar de lado algo de que gostava. Já
estava vivendo o jejum da falta da minha mãe. O mais difícil da minha vida. O
jejum que não acaba em 40 dias. Uma orfandade sem fim.
O tempo, santo remédio, certamente vai cuidar de colocar todas
essas emoções no seu lugar, mas eu seguirei relembrando, escrevendo,
homenageando àquela a quem devo tudo que sou, que tenho, que sonho, que planejo,
que conquisto, que insisto, que resisto, porque ela é o MEU TERRITÓRIO SAGRADO,
hoje e sempre.


