DA NETA À AVÓ
Hoje faz um mês que você se foi, faz um mês que deixamos de receber os telefonemas diários do hospital, que no começo eram ligações otimistas, boas e quando tínhamos esperança da sua quase extubação.
DA NETA À AVÓ
Hoje faz um mês que você se foi, faz um mês que deixamos de receber os telefonemas diários do hospital, que no começo eram ligações otimistas, boas e quando tínhamos esperança da sua quase extubação.
Então é Natal
Chega o Natal a data tão esperada
pelas famílias cristãs. Dia de celebrar o nascimento de Jesus e reunir a
família para confraternizar, agradecer e celebrar a vida.
Na minha infância no Natal não
tinha presente, nem mesa farta posta, mas tinha minha mãe montando o presépio,
contando a história do menino jesus e fazendo o frango assado recheado com farofa
de miúdos que jamais vou esquecer.
O cuscuz, o pudim e o manjar
branco eram comidas que também não faltavam na noite de Natal.
A véspera do Natal era tão mágica
quanto o dia. A véspera tinha a espera, o preparo das comidas, a família combinando
os pratos, as bebidas. A véspera tinha o sabor do porvir.
O porvir era tudo aquilo que iria
acontecer: as risadas, os abraços, as piadas, as brincadeiras, a reunião, as
músicas, os presentes, as comidas...
O porvir era o futuro logo ali
nos convidando para a convivência familiar.
Em 2020 o Natal estará diferente.
Este é o ano em que muitas famílias lamentam a perda de amigos e familiares
devido à doença COVID-19. A minha é uma delas.
Faltará um lugar à mesa e
precisaremos aprender a ter os natais sem ela. Como me aconselhou ontem uma
amiga querida, comemoremos com TUDO o que temos.
Em 2020 não tem frango assado, cuscuz,
pudim, manjar branco e nem minha mãe, que acompanhará tudo à distância, porém temos
familiares amados, amigos queridos, comidas com outros tantos sabores e amor
para dar e receber.
Feliz Natal com tudo o que
temos!!!!
A sogra que todas pediram a Deus
Muito se fala mal das sogras por
aí. Sátiras e piadas sempre estão nas redes sociais, nas rodas de amigos
trazendo à tona o pior das sogras.
Com minha mãe era o contrário. Claro,
que com seu jeito meigo, carinhoso e pacificador soube cativar e se aliar às
noras.
Minha mãe era esteio, aconchego,
amorosidade, prontidão.
Era colo no olhar.
Era abraço, sem ser muito dada a
contato físico, devido à sua criação.
Era amor ao dizer sim.
Era respeito e leveza ao
aconselhar.
Era mão estendida para acolher.
Era sorriso aprovador.
Como não amá-la? Como não querer
tê-la por perto?
Era segunda mãe, de um coração
incrível.
Era o acolhimento em pessoa.
De amor imenso que enlaça
E gratidão pura que abraça.
Quem não quer uma sogra assim?
Ah! O Natal! Que época mágica!
De tudo o que envolve o Natal: presentes,
árvores enfeitadas, confraternizações, encontros familiares, luzes, comidas e
bebidas sobre a mesa farta, a montagem
do presépio é para mim um momento muito significativo e especial. Em casa, não
tem como montar a árvore, sem fazer o
presépio.
Uma tradição que vem passando na
família e que espero que permaneça por muito tempo.
Antigamente montar o presépio era
algo grande. Lembro que o trabalho de montar o cenário do nascimento do menino
Jesus, na casa das minhas avós, exigia tempo e engenharia. Primeiro montava-se
num canto da casa um tripé de madeira, a um metro do chão ou mais. Depois sobre
a madeira colocava-se areia, musgos, “barba
de pau”, grama e ramos de cedro e cipreste. Esses últimos perfumavam a casa por dias. Só depois de tudo
isso colocado era hora de acomodar os personagens. Além da sagrada família, dos
animais, dos reis magos, muitas outras figuras eram colocadas no presépio,
criando uma cena interessante e cheia de detalhes especiais.
Hoje os presépios nas casas
diminuíram de tamanho e de frequência.
Minha mãe cultivou a montagem do
presépio e me ensinou a me encantar com ele. Hoje tento emocionar minha filha e
manter o ritual em casa.
Contava ela que, só deveríamos pôr o menino Jesus no presépio à meia noite do dia 24 de
dezembro. E ficávamos esperando por isso. Nem sempre tínhamos presentes, mas
nos contentávamos com o frango assado recheado com farofa. Ah e era tão bom!
O meu presépio é bem singelo e montado
sobre um aparador. As peças foram presentes da minha mãe quando mudei para a
minha casa e passei a fazer o MEU presépio.
Primeiro Natal sem a minha mãe.
Seu presépio já foi montado pelas netas, que conservaram seu jeito de dispor
cada peça. O meu presépio, estou arranjando forças para montar... Amanhã eu monto..
A casa da minha mãe sempre foi um lugar de aconchego pra
mim. Estar lá é como se me sentisse criança novamente, embalada e protegida do
mundo.
Dois objetos na casa da minha mãe par mim simbolizam a força
e a determinação da D. Nair.
Comprados de “segunda mão” a aquisição não foi menos
valorosa do que se comprado na loja.
O primeiro objeto é sua máquina de costura. Muito suor
derramado para que ela pudesse comprá-la. Lembro que ela demorou muito para
poder ter a sua e antes precisava emprestar para fazer suas costuras.
Quantas memórias da minha mãe costurando!
Costurar para minha mãe era um trabalho e uma distração. Ali
envolvida, colocava seu pensamento e era feliz com seus tecidos.
Costura para mim simboliza criar, inventar, renovar, juntar,
grudar, emendar. Verbos importantes e que trago comigo procurando empregá-los
na minha vida em situação diversas.
O segundo objeto é a sua cristaleira.
Lembro da cristaleira chegando em casa, da satisfação da
minha mãe e do quanto nossa sala ficou embelezada.
Na cristaleira guardava seus mais queridos e estimados
objetos. Aquele móvel envidraçado, expunha seus jogos de café, doceiras,
souvenirs e outras louças.
A cristaleira da sala remete à cuidado, zelo, capricho, valorização
daquilo que apreciamos.
Trago comigo as lições e marcas afetivas de tudo o que essas
duas peças da casa da minha mãe representam
para mim.
Sem a “campainha”
Nada tira mais o sono de uma mãe
como a doença nos seus filhos. Meu irmão Dene desde que nasceu pregou muitas
peças em seus pais.
Meu pai conta que sempre foi
grato à minha tia Maria por ter varado a noite com ele e minha mãe, cruzando a
pé 18 quilômetros até a cidade mais próxima,
levando meu irmão Dene adoecido até o hospital.
Sem recursos, só restava a fé e a
coragem para desbravar passo a passo a longa caminhada.
Meus pais também contam da
gratidão à Tia Lica que também os
conduzia até um hospital em Campinas para tratar esse mesmo irmão de um
problema na garganta. Dene nascera sem a “campainha”. “Campainha, goela ou
sininho” são nomes populares àquele apêndice situado na parte posterior da
boca, chamado pelos médicos de úvula.
Segundo o Google, a “campainha” serve de alarme de que quanto algo
ao passar pela garganta é preciso fechar as vias respiratórias para que não
entre nada na cavidade nasal, nem na traqueia.
Sem a “campainha” tudo o meu
irmão comia ou bebia regurgitava pelo
nariz. A fala também ficava um pouco prejudicada.
Dá pra imaginar quantos sustos
minha mãe passou com essa situação.
Foram longas viagens até meu
irmão passar pela cirurgia. Depois um bom período de recuperação, curado com
remédios, amor e muito carinho.
As crises do meu irmão
Sou irmã de 4 meninos, três vivos e um falecido quando ainda
era bebê. Quando pequenos, um dos meus
irmãos tinha uns desmaios frequentes. Lembro do desespero da minha mãe quando
eles ocorriam.
Recordo de uma vez que estávamos brincando no quintal de
casa e meu irmão caiu. Eu ainda muito pequena, devia ter uns 4 anos, sai
correndo e gritando e esmurrando a porta da cozinha “mãe vem ver o Edi, ele
caiu aqui no chão!”
Minha mãe pegou-o no colo e saiu desesperada, gritando e
pedindo ajuda à minha avó.
Naquele tempo consultas médicas eram caras e raras.
Morávamos longe da cidade e tudo era muito dificultoso. Os remédios caseiros e
benzimentos eram muito comuns e na maioria das vezes substituíam medicações e
médicos.
Ao redor das casas muitas plantas medicinais eram plantadas
e era desse jardim que se extraiam os
analgésicos, calmantes, xaropes, antibióticos.
Depois dos desmaios, lembro também que meu irmão acordava à
noite, gritando, apontando para o telhado (a casa não era forrada) e falando
coisas que não entendíamos. Era desesperador e só com muito carinho e colo
materno ele se acalmava.
Foram anos de preocupação, dedicação e investigação
empírica.
Não lembro quando tudo isso passou. Lembro dos muitos
benzedores em que minha mãe levava meu irmão e das orações constantes. Ele se
curou. O amor, a força e a determinação dela o curaram.
Panelas com durepoxi
Minha mãe sempre foi o alicerce
da nossa casa. Através dela, do seu trabalho e da sua dedicação à família, meu
pai pode trabalhar. Com muito suor derramado em dias de sol escaldante,
deixando pedaços de carne nas cercas que fazia, perdendo noites de sono em
viagens de negócios que tiravam meu pai,
dias e dias de casa, conseguiram progredir financeiramente.
Acontece que não basta conseguir
melhorar de vida, famílias que como a nossa conquistam coisas com suor, não tem
condições de manter suas conquistas se não continuam a trabalhar.
Como nada veio fácil, é preciso
continuar na labuta, especialmente quando se trata de trabalhar na roça. As
cercas se desfazem, e é preciso erguê-las novamente. O pasto cresce e é preciso
da roçada. Os canos que levam água, racham com o sol e o gado não pode ficar
com sede. A lavoura é plantada, precisa de cuidados. É um trabalho sem fim,
sempre há algo por fazer.
E aí entra a dedicação e
determinação da minha mãe. Dentro de casa era preciso fazer economia. O que
podia ser consertado, arrumado, costurado, transformado era economia e segurava
o dinheiro. Assim, lembro de roupas feitas com tecidos reaproveitados e outras
com muitos remendos, lençóis e fronhas costurados a partir de sacos de açúcar
alvejado, colheita de paina para fazer travesseiros e palha de milho para fazer
colchão, toalhas de banho finas de tão gastas ainda sendo usadas, e a
manifestação de alegria e acolhimento quando recebíamos doações de roupa.
Minha mãe aprendeu a fazer sabão
de pedra, com reaproveitamento de óleo e
as sobras de comida nunca iam para o lixo. Fazia pães e bolos deliciosos que
nos alimentavam. Pintava a casa e a embelezava ainda mais plantando jardins,
extraindo mudas das sementes que recusava em jogar no lixo.
Ainda lembro das panelas
consertadas com durepoxi na sua parte externa. Aquela massinha evitou que tantos
utensílios domésticos fossem jogados fora e não fosse preciso por um bom tempo,
desembolsar dinheiro por uma nova compra.
Vergonha de ter vivido isso?
Tristeza? Nada disso. Só orgulho a
ostentar.
Quantas lições e aprendizados eu
e meus irmãos pudemos tirar dessa vida vivida com dificuldade, mas cercada da
presença dos nossos pais, nos vendo, nos ensinando, nos conduzindo para o
caminho do bem.
De mãe para mãe
Uma das grandes demonstrações de amor da minha mãe a mim,
veio durante a minha gravidez, aos 32 anos. Eu ainda morava na casa dos meus
pais e fui mãe solteira.
Ela pouco falava, mas sabia que era um período em que minhas emoções transitavam entre a
alegria da maternidade e o medo e a tristeza de atravessar esse período
“sozinha”.
Foi um período em que que cuidou muito de mim. Esteve todos
os dias ao meu lado, me enchendo de amor e cuidados
Quando saí da maternidade, ela me aguardava na recepção
alegre e sorridente para irmos para casa.
Naquele ano (2000) , o frio foi intenso no mês de junho e
julho. Raphaela deu bastante trabalho nos primeiros três meses, chorava muito e
eu amedrontada e exausta sempre pude contar com minha mãe, que mudou-se para o
nosso quarto.
À noite revezávamos para dormir, acordando cansadas a cada
novo dia.
Certa vez me confessou que mesmo parindo 5 filhos, e
experiente que era, em nenhum dos seus partos tinha vivido experiência tão
cansativa.
Aos poucos, Raphaela foi tratada de refluxo e passou a ter
sono regular, permitindo que descansássemos e tivéssemos também nossa rotina de
descanso normalizada.
Toda gratidão do mundo não é capaz de “pagar” a gigantesca dedicação
da minha mãe. Naquela época o que achei oportuno fazer foi convidar meus pais
para serem os padrinhos de batismo da Raphaela. Para sempre os papéis de avó e
madrinha estarão entrelaçados em nossa eterna gratidão.
Lavando roupa no ribeirão
Quando bem pequena moramos numa
casa amarela de janelas avermelhadas e onde passava um rio. Casa feita de pau a
pique, com piso de terra, que era rebocado com estrume bovino. Sim, o estrume
bovino, ao secar formava uma crosta no chão, que evitava que a terra se
soltasse e dava um acabamento e um ar de limpeza e arrumação.
Ainda lembro das velhas portas
com muitos furos que permitiam a entrada dos raios de sol no amanhecer do dia.
Sou ainda capaz de lembrar do frio que também adentrava à nossa casa.
Na casa dois quartos, uma sala,
uma cozinha com fogão à lenha e o banheiro, fora da casa, era uma casinha com
um pano servindo de porta, com um buraco no chão para fazermos nossas
necessidades. Morria de medo daquele banheiro, cujo chão era sustentado por
tábuas. Na casa também não tinha tanque e a roupa era lavada no ribeirão.
Lembro que na beira do rio tinha
uma tábua inclinada sustentada por um mourão quer servia para a minha mãe
ensaboar e “bater” a roupa e um quaradouro suspenso feito com esteiras de
taquara para limpar as roupas mais sujas.
Imaginar o trabalho que isso dava
me faz amar ainda mais a minha mãe. Saber que tudo o que fazia para cuidar de
nós e da nossa casa era cercado de dificuldades me faz ser muito mais grata
ainda.
Depois de um tempo, em outra casa
já me recordo que ela tinha tanque e água encanada. Mas ainda lavava a roupa
sob o sol. Mais à frente, moramos em outra casa que tinha uma lavandaria
coberta e com dois tanques.
Só mais tarde em sua casa própria
lembro que dei de presente a ela uma máquina de lavar, que existe até hoje.
Com minha mãe as coisas duravam.
Ela cuidava com primor e sabia dar valor a cada pertence seu. Olhando com mais
atenção a isso, me certifico que as dificuldades ensinam o valor que cada
situação ou objeto possuem. E fazem com que dedicamos mais amor no cuidado e na
proteção das nossas conquistas.
Rezando o terço
Cresci acompanhando as rezas do terço. De religião católica
participava do terço em família ou na igreja que frequentava, mas nunca tinha
por mim mesma conduzido um terço.
Quando minha mãe adoeceu e esteve internada buscamos na fé
pedir incansavelmente a sua recuperação. Não podíamos nos reunir pessoalmente,
mas diariamente nos reuníamos em um encontro virtual.
Quando foi internada, os pertences da minha mãe ficaram em
casa e num livro de orações encontrei orientações de como rezar o terço. Nunca
tinha rezado o terço e a ocasião me levou a diariamente conduzir as orações familiares.
Que bem isso me fez. Pensava em como minha mãe estaria
contente de me ver seguindo seu caminho de orações.
Passei a rezar o terço 3 vezes por dia, esperançosa de que
Deus ouviria minhas preces. Ele não fez o que eu pedia, nem o que meus irmãos
ansiavam, nem o que eu e minha família achávamos que era bom pra nós. Ele levou minha mãe para
junto dele. Tirou-a da dor e do sofrimento e fez com que se libertasse.
Rezar o terço em família nos uniu e nos fortaleceu, trazendo
força e esperança aos nossos corações.
Muitos terços foram rezados por nós e por muitos amigos.
Certamente as orações chegaram até a minha mãe e embalaram seu coração, já
descompassado e buscando o merecido descanso.
O livro de orações da minha mãe, guardo como um tesouro.
Herança que não posso precisar o valor. Ali me encontro com ela. Ali sinto sua
presença.
Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...