2.11- Culinária afetiva- aroma de amor e afeição
Semana passada, dias chuvosos, acinzentados pela chuva, tempo
propício para um caldo.
Sozinha em casa, lembrei-me de um prato que minha mãe
preparava para nós desde crianças: o escaldado de ovos.
De raiz caipira, o escaldado de ovo faz parte da comida
típica mineira, inventada há muito tempo e, por ser um prato rápido e barato,
fez parte da nossa infância, quando os tempos eram difíceis financeiramente.
A origem é mineira, mas
chegou primeiro às tribos indígenas, sendo um prato preparado com
farinha de milho ou fubá. Os ovos adicionados no caldo têm origem portuguesa.
Um caldeirão de sopa nutria a família de seis pessoas, com
sabor, muita sustância e economia. Muitas vezes apenas um ovo era quebrado e
ele rendia uma refeição que sustentava corpos e almas.
Os ovos vindos do galinheiro do quintal, me lembram a festa
que eu fazia quando ouvia a galinha cacarejar avisando que já tinha botado.
Enquanto eu preparava o prato, as memórias atravessavam meus
pensamentos saudosos da minha mãe. Cada colherada saboreada, tinha gosto e presença
dela.
E enquanto a colher mexia o grosso caldo, me lembrei também
do caldo de carne que minha mãe fazia pra mim e meus irmãos. Quando cozinhava
carne, ela preparava assim: do cozido formava
um caldo ralo, porém cheio de proteínas, colágeno e ferro e, em um prato fundo
colocávamos farinha de milho. Então, minha mãe vinha com a concha cheia de
caldo que despejava sobre a farinha. Ah! A alquimia estava feita! Essa
combinação formava um grosso e suculento caldo que desmanchava na boca, repleto
de sabores. Isso tudo era tanto, era colossal e enchia nossa casa com aroma de
amor e afeição.
É por isso que num dia nublado, frio, escurecido pelas nuvens
pesadas, meus pensamentos viajaram para a infância, para um tempo de alma
aquecida, corpo fortalecido pelas refeições e orações que pediam a chegada de tempos
melhores.

