sábado, 8 de novembro de 2025

5.0 Sabor de saudade



Ao lembrar da data que comemora 5 anos da sua partida, uma história vivida pela minha sobrinha.

Uma mordida num pedaço de torta de frango e um mundo de saudades saliva a boca da moça que só queria naquele momento saciar a sua fome.

O simples pedaço de torta foi capaz de mexer com suas emoções de uma vida inteira, que soma 27 anos.

O sabor da saudade atravessa o lanche e foi impossível comer a fatia sem que um nó se fizesse em sua garganta e uma lágrima descesse pelo seu rosto.

O gosto de cada elemento combinado em sua boca a reportou ao tempo da infância, em que a avó preparava a tal torta para levar nas viagens anuais à Aparecida do Norte.

A torta tem agora gosto de sono quebrado com os sustos das freadas do motorista,  chacoalhadas na poltrona pouco confortável durante a madrugada, peregrinação às igrejas e praças, orações de agradecimentos e pedidos,  lanches socializados entre os amigos e compras de suvenires na feira e barracas de rua.

E então, as lembranças se juntam e ela chama o pai para desfrutar do gosto que aperta o peito, ao mesmo tempo que parece aproximar daquela que partiu há 5 anos.

Nessa hora bateu na moça uma vontade de subir a rua, andar 3 quarteirões, bater na porta e ser atendida por aquele sorriso doce e voz calma, mas isso só aconteceu mesmo na força dos seus pensamentos. Lembrou que não seria possível realizar o desejo de rever aquela cuja ausência sustenta um vazio enorme no peito e sangra vez ou outra, como sangrava agora.

 O amor ficou sem endereço?

Às vezes procura olhando pro céu, outras depositando flores no gramado do seu túmulo, em outras tocando seus objetos ou  fazendo as coisas que a representam.

Hoje ela encontrou seu endereço num pedaço de torta de frango...

 

4.11 Ensinamentos genuínos

 


Com quem mais minha filha aprenderia a fazer biscoito de polvilho na folha da bananeira?

Honrar quem partiu vivendo o que ficou é uma forma de  falar da vida que segue, mesmo quando a saudade ainda pulsa latente.

Por isso, tento fazer das lembranças um lugar que conta do vivido, do amado, do admirado, do que me moldou; sem querer apagar a memória que me traz aqui, hoje.

Por isso escrevo, conto e retrato em palavras,  o vazio de um lugar que nada, nem ninguém consegue ocupar.

Dou licença para a saudade se achegar no café sem a sua companhia, na receita que tento refazer, na roupa que lembra dos dias festivos,  na xícara  que me foi dada de presente, nas fotos saudosas.

E nas lembranças, sem dúvida nenhuma, vem  a gratidão por todo cuidado com a nossa família, sem deixar de citar todo empenho na criação da minha Raphaela e a grandeza da sua  representação para ela.

Detalhes tão sutis, companhia tão profunda, toques  repletos de significância, ensinamentos especialmente genuínos.

E então repito a pergunta inicial:

Com quem mais minha filha aprenderia a fazer biscoito de polvilho na folha da bananeira?

 

 

 

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...