E hoje para comemorar os seus 76 anos colocamos no fogão aquela
panela grande onde você fazia arroz para muita gente. A panela sinalizava que a
família ia se juntar.
Compramos bolo porque não tínhamos o seu.
Fizemos bolinho de chuva como você faria num dia chuvoso
como hoje, coberto com muito açúcar e canela para agradar, especialmente aos
netos.
Sim, rememoramos e come-moramos: mesa farta, todos reunidos,
conversamos alto, falamos todos de uma vez. Impacientes e falantes, fizemos
planos.
Sentimos a sua presença em tantos detalhes.
30 de janeiro, pela segunda vez, passou doído sentindo a sua
falta.
Dia estranho como diz a poesia:
“os dias têm sido estranhos
desde que você foi embora.
⠀
e eu não quero dizer
que você está longe de mim.
quero dizer que eu não vou mais ver
você.
nunca mais.
não daquele jeito, não.
⠀
e todo esse tempo depois,
não é do amor
e suas consequências
que eu mais lembro.
é de todo o resto.
⠀
porque em dias como esses
nós cancelaríamos
o som do mundo
com as mãos sobre os ouvidos
e conversaríamos e riríamos
através dessas noites
e dias estranhos.
⠀
todas as palavras,
todas as músicas,
todas as tardes,
todos os olhares,
todos os sorrisos.
⠀
é isso que ficou
e ainda permanece aqui dentro
ecoando gritos tão barulhentos.
⠀
mas é o destino natural das coisas:
o mundo é um gigantesco mar de lama
e uma dessas grandes ondas
levou você embora.
⠀
e mesmo que as águas já não estejam
tão agitadas
eu sei que nem um tsunami
poderia trazer você de volta.
⠀
então eu fico aqui
flutuando pela correnteza
assistindo mais uma noite chegar e
partir
enquanto os dias continuam tão
estranhos.”
⠀
- "dias estranhos", do livro "Algo dentro de mim que arde
e grita"
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