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segunda-feira, 8 de abril de 2024

3.5- Saudosos de amanheceres mais ensolarados.


 

Vez ou outra, ainda sou invadida por um turbilhão de emoções quando lembro da sua partida. Os olhos lacrimejam e quando vejo,  as lágrimas rolam feito cachoeiras salgadas pelo meu rosto.

E no dia 7 de cada mês, sento para colocar minhas emoções no papel, esperando com isso preencher um pouco do vazio instalado por aqui.

Ainda sinto parte dos dias acinzentados, saudosos de amanheceres mais ensolarados.

Ainda busco palavras para confortar aquilo que nos desconforta, desconsola.

Ainda vejo suas mãos sábias em tantas coisas que ficaram aqui, entristecidas da sua ausência.

Ainda ouço sua voz em  preces e bênçãos amorosas  em cada aniversário, data festiva ou reunião em família.

Tantas novidades, novos acontecimentos, mudanças, reorganizações.  O que diria? Que conselhos daria? Que verdades não economizaria? Que atitudes tomaria?

Fazer a transposição da saudade , acomodando o espaço da falta que nada preenche é doído, sempre.

Difícil deslocar,permutar, transferir a saudade, se ainda é presença latejante.

Talvez, dia após dia, chegue o momento de conseguir driblar o sentimento, enganando ou trocando de endereço talvez.

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

2.9 Das coisas que ficaram

 



 

Muitas coisas ficaram sem vida depois da sua partida.

Seu jardim, suas samambaias e orquídeas sofrem a ausência dos seus cuidados.

O fogão, agora descansa com o pouco uso. 

E a cozinha é pouco aquecida pelo fogo da chama que quase não apagava. 

As panelas estão  a repousar.

A boleira e as travessas de servir doces permanecem nos armários.

Das coisas que ficaram, algumas nos fizeram reaprender o riso.

Das coisas que ficaram, algumas nos machucam os olhos ao lembrar a sua falta.

Das coisas que ficaram, algumas nos confortam e nos enchem da sua presença.

Das coisas que ficaram, muitas estão impregnadas do seu jeito, da sua honestidade.

Das coisas que ficaram, ainda tem o pó de arroz, o batom e os esmaltes que continuo usando para ter-te um pouquinho comigo.

Mulher de pouca vaidade e muita dignidade, não era de excessos, o uso da maquiagem era leve, dosado,  bem moderado. Prezava a naturalidade, sem disfarces.

Mas, o pó, o batom e os esmaltes clarinhos lhe faziam gosto.

 E eu, faço gosto de usá-los partilhando das coisas que ficaram, além da saudade.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

2.7 - Festa de Santa Maria

 


A típica festa de Santa Maria me leva todos os anos, em junho,  até o Bairro Canta Galo, onde temos nosso recanto, onde meus pais nasceram, onde eu nasci.

Ir ao Canta Galo sem  ter a presença física da minha mãe é bem doloroso. Ao mesmo tempo que nos aproximamos da nossa raiz e nossa essência, das recordações dos muitos encontros neste lugar, a saudade também bate forte.

Tudo ali lembra a minha mãe: as plantas, o pomar, a cozinha, o gramado, o varal, o fogão à lenha, os móveis e peças antigas...

Cada almofada costurada por ela, cada cortina pendurada por ela, cada objeto comprado por ela traz recordações afetivas profundas.

Cozinhar nas suas panelas traz um gosto especial para a comida. Comer as frutas do pomar traz saudosismo e boas lembranças. Colher flores do quintal alegra nossos dias.

E a Festa de Santa Maria é um marco na nossa vida. Seja pelas festas em que meus pais participaram ou foram festeiros, seja pelas amizades que reencontramos lá, seja pelo lado religioso que nos conecta ao lugar que representa muito do sagrado que identificamos.

Reconhecer o poder emocional sólido vindo dessas lembranças e dos objetos que nos cercam dão potência afetiva e de sobrevivência a determinados momentos e lugares. Esse tempo e lugar é reconhecidamente fortalecedor para nós.

E continuar participando desta festa nos fortifica e nos comunga com as pessoas que perdemos ao longo dos anos. E, ainda nos lembra que, devemos perpetuar suas memórias em nossas mentes e corações.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

1.8 Sentindo os efeitos curadores do tempo

 

O tempo é tão voraz e ao mesmo tempo tão cicatrizador.

Quer ver o efeito do tempo é só olhar o que ele faz com uma queimadura ou corte. Pensei nisso outro dia, quando cortava abóboras para fazer um doce para o aniversário da Rapha.  Afoita como sou, me descuidei e lá se foi um pedacinho da minha pele. Imediatamente me lembrei das tantas vezes em que a minha mãe se cortou, se queimou, se acidentou,  cozinhando.

Forte como era, pouco reclama. Ela sabia dos efeitos curadores do tempo.

Nas últimas semanas tivemos duas festas em família e foi impossível não lembrar da minha mãe. Suas comidas, seu tempero, sua presença leve e apaziguadora. Ela estava presente em tudo. Era nossa grande força no preparo das comidas, nas arrumações, nas sugestões, no jeito de nos acalmar e dizer que tudo iria dar certo.

Nossas festas em famílias são momentos de celebração que marcam datas especiais e se tornam comemorações que juntam e celebram o encontro das parentes e amigos. E a alegria do momento é compartilhada entre todos.

Encontrar os familiares e amigos, comer e beber, dançar, relembrar casos e criar novas memórias afetivas é muito prazeroso e fortalece nossas relações.

As memórias afetivas da minha mãe sempre nos acompanharão, pois foram construídas em meio de muito amor, carinho, apoio e palavras fortalecedoras.  E assim ela segue lembrada em cada encontro que criamos.

O tempo? Ah,  ele  é tão cicatrizador, mas não cura a saudade.





5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...