terça-feira, 9 de janeiro de 2024

3.2 Quer comer alguma coisa?



São 3 anos e 2 meses que não perguntas o que queremos comer, que não atende o telefone, que não insiste para sermos bons planejadores, que não comenta conosco suas preocupações com cada membro da família.

São 3 anos e 2 meses que estamos esvaziados do seu potente amor de mãe, que tudo acolhe, tudo conserta, tudo ameniza, tudo fica embriagado de afeto.

São 3 anos e 2 meses que sua casa, mesmo aberta,  esvaziou.

Esvaziou da sua presença acolhedora. 

Esvaziou de sentido.

As memórias são hoje, para nós, promessas de amor eterno, as quais jamais se esvaziarão.

A sentimos embriagada de luz e assim a sua presença vai nos preenchemos diariamente. 

Por isso, continuo escrevendo e contando nossas memórias e sentimentos. As palavras precisam de mim e eu delas para que o vazio seja menos profundo.

Minha forma de conexão e de agradecimento. Assim, a porta fica encostada, entreaberta...


3.1 Pedaços indissolúveis de mim



"Mãe arruma a barra dessa calça pra mim!"

"Mãe passa esse vestido para a formatura, por favor"

"Mãe faz uma marmita pra mim!"

"Mãe faz a comida X que estou com vontade."


Todas essas frases e muitas  outras  foram minhas à minha mãe em muitas ocasiões e ela sempre prontamente me atendia.

Todas essas frases e muitas outras são da minha filha à mim.

Este texto nasceu na minha mente dias atrás quando Rapha me pediu para passar um vestido para ir a um casamento.

Imediatamente me lembrei dos pedidos que fazia e da ajuda da minha mãe.

Nunca fui boa,  interessada e  prestimosa nos serviços domésticos como era a minha mãe. Queria mesmo era estudar, ler, escrever, criar. Dedicava meu tempo ocioso a essas tarefas. 

Quando fui mãe tive um respaldo imenso dela. Não fosse ela tão pacífica e amorosa me ajudando em cada fase da minha bebê acho que teria sucumbido ao deserto que atravessava. 

Quando fui morar sozinha com a Rapha também. Ela foi minha estrutura, suporte, apoio.

Sinto tanto não ter podido fazer a ela ao mais do que fez por mim.

Enquanto eu passava o vestido esses pensamentos me tomavam e era dezembro.

E dezembro sempre mexe muito comigo num misto de alegria, saudosismo, recordações da infância, esperança em dias melhores, desejo de aceitação, encontros em família...

Ferro a passar e os pensamentos em minha mãe e filha: 'gosto muito de ti para sempre', 'obrigada por existires', um 'estou aqui para ti, sempre'.

Ferro alisando o tecido amassado junto com as memórias de abraços apertados, palavras fortalecedoras, gargalhadas altas, colo aconchegante,  ombros que seguram sem prazo de validade.

Ferro deslizando quente sobre a peça lilás e meus pensamentos pedindo que lhes cheguem olhos que brilham, palavras que  protejam e cuidem,  e ainda que haja uma luz ao fundo do túnel para cada escuridão a enfrentar.

Minha filha, minha mãe, pedaços indissolúveis de mim.

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...