segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

 DA NETA À AVÓ



Hoje faz um mês que você se foi, faz um mês que deixamos de receber os telefonemas diários do hospital, que no começo eram ligações otimistas, boas e quando tínhamos esperança da sua quase extubação.

Depois da primeira semana, que estava caminhando calma, pacífica e esperançosa, a luz no fundo do túnel foi se apagando e caminhando para sua segunda semana na UTI. Nunca perdemos a fé, mas nosso pensamento passou daqui de fora de: "tomara que ela saia, independente da condição ela tem que viver", para: "Deus sabe o que é melhor pra você", foi dolorido, foi triste, foi rápido e, o pior: invisível para nós que estávamos daqui de fora, que não tínhamos como ver você, te fazer um carinho, segurar sua mão, e mostrar mais ainda o quanto você amada é por nós.
Na última vez que vi você, quando te levei ao hospital e a enfermeira disse que você permaneceria lá, você estava plena, pacífica, e não derramou uma lágrima, enquanto eu e minha mãe tentávamos passar uma leveza no olhar pra você, mesmo com os olhos encharcados. Seu olho estava verde, mas tão verde que não paro de me lembrar um dia. Peguei na sua mão e te disse "vó, por favor aguenta, são só uns dias pra você se recuperar, não fica triste, eu já volto tá?" e você me respondeu "tá bom fia eu sei, logo eu volto". E no corpo físico não voltou.
Mas sei que você está comigo, dentro de mim, me guiando, me aconselhando e vendo minha evolução dia a dia, como ser humano e como uma alma que quer cada dia estar melhor e te dar mais orgulho.
É duro de acreditar, mas a vida é assim, em um piscar de olhos mudam os planos, a rotina, os desejos e os momentos, deixando a gente sem palavras, sem reação, e nós só temos que aceitar o que o universo tira e põe de nossas vidas. É doido, mas é o ciclo da vida, você cumpriu sua missão, e sou muito grata por ter tido você em minha vida.
Me acompanhou desde o meu nascimento e me acolheu não só em sua casa, mas em seus braços e em seu coração. Sempre te perguntava quando tinha uns 7 anos “vó sou sua neta preferida né?” E você dava risada e falava “ah Rapha você não existe, eu amo todos iguais”, e eu repetia “mas eu que durmo com você na sua casa, não sou eu a preferida?”
E a gente se entendia... eu tinha medo de quando escurecia, ficava sentada embaixo do balcão enquanto você lavava a louça da janta e eu falava sempre “nossa vó tá anoitecendo, você não tem medo de ficar só nós duas aqui sozinha?” E você falava “medo? Se a gente tiver medo a gente não é nada, e não vive, para de ser medrosa fia”.
Depois, deitávamos na cama juntas e acordávamos no dia seguinte, uma sendo a companheira da outra... eu te enchendo a paciência pra ir comprar geladinho na rua de baixo, ou asinha de frango no mercado - que aliás, comecei a andar sozinha com seu empenho... - você me falava “vai pela calçada esquerda e olha a rua pra atravessar, você tem que saber andar sozinha e ser independente”. Eu morria de medo, mas ia...
Ah, quantas histórias, quantos momentos...
Te amo onde você estiver, nos veremos em breve, minha vó, minha madrinha e agora meu anjo.

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