domingo, 28 de fevereiro de 2021

Feminismo


 


Feminismo

Minha mãe teve cinco filhos. Eu a única menina. Eu e minha mãe nesse universo predominantemente masculino, regado a preconceitos e favorecimentos ao gênero tido como mais forte.

Como obter espaço na família cercada de homens, com um pai autoritário e machista? Como ter liberdade,  se havia uma lista de padrões que devia seguir? Como pleitear igualdade, sem ser vista como a ovelha negra da família?

Quando criança sempre vi o meu pai ditar regras e minha mãe acatar. Sempre via ele no comando e minha mãe seguindo atrás. Eu só observava. Não queria aquilo para mim. Então passei a me espelhar no meu pai. Queria ter controle como ele. Tomar decisões como ele. Ser livre como ele.  Ter força como ele.

Minha mãe era  “do lar”, prendada, ordeira, paciente. Eu sempre contestava e buscava liberdade.

Minha mãe era paciente e eu queria ser guerreira.

Minha mãe sabiamente se calava diante de um conflito e eu tomava a palavra.

Minha mãe era dona de casa e eu agarrei com unhas e dentes o meu primeiro emprego para dali construir minha independência.

Não aprendi a costurar, bordar, mas entendia bem de futebol.

Não queria saber das prendas domésticas. Queria estudar para trabalhar e ter independência do meu pai.

Dias antes de partir, em casa, se lamentou por não ter podido estudar. E disse estar feliz pelos meus estudos e minha carreira.

Uma alavanca que me impulsionou na vida foi o estudo. E isso ela me incentivou sempre. Talvez para realizar um sonho que não pode realizar. Estudar para mim não era fácil. Morava na zona rural e precisava de muita força de vontade para dar conta dos estudos.

Demorou muito para minha mãe encontrar seu lugar e se rebelar contra suas imposições.

Com o passar dos anos descobri que não era meu pai quem detinha o poder lá em casa. Era a minha mãe. Quem tinha a força era ela. Ela mantinha-se controlada, tinha persistência diante das dificuldades, aconselhava e tinha a palavra mais sensata quando estávamos assustados, nos dava a esperança de dias melhores, recorria à religiosidade dando-nos exemplo nas horas difíceis, mostrou-nos sua frequente capacidade de se reinventar tantas vezes, era paciente diante das adversidades e resiliente.

 Ela aprendeu a “dançar conforme a música” e isso a fazia forte, perseverante, uma mulher incrível e sábia.

Hoje peço a Deus que me ajudar a cada dia mais me inspirar na minha mãe tendo leveza em vez de pulso firme, tendo calma em vez de rapidez, distribuindo palavras mansas em vez de querer ganhar na força da palavra.

 

 

 

 

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