Partilha
Minha mãe sabia organizar muito
bem uma partilha. Fosse a partilha da compra do mês para que durasse 30 dias, fosse
a partilha da renda distribuída entre o que era preciso ou o necessário, fosse
a partilha dos cuidados com os filhos e a família, fosse a partilha do tempo
para dar conta de todas as tarefas.
Enquanto crescíamos assistíamos
seus malabarismos para fazer a casa funcionar bem, as roupas sempre limpas e ajustadas, a cozinha sempre com as panelas cheias, os
quartos com as roupas de cama cheirosas, num tempo em que não havia amaciantes.
Partilhou conosco alegrias e
disciplina, amor e exigência.
Partilhou conosco músicas e
histórias, cuidados e a força. A força de ser, sem exageros.
Partilhou conosco a fé, as
orações, os cânticos sagrados.
Partilhou conosco a delicadeza de
chegar nos lugares e se fazer presente com sutileza.
Partilhou conosco o trabalho e a disposição para fazer o que tiver que ser
feito.
Crescidos partilhamos segredos,
amores perdidos, dores e medos. Ela sabia de tudo, mesmo quando não falávamos.
Crescidos lhe demos trabalho, partilhando as preocupações das bebedeiras, das noites em que chegávamos com o sol raiando, dos amores incertos ou inconstantes, dos convites para festas que não paravam de chegar, dos churrascos na casa dos amigos.
Crescidos partilhamos conquistas,
sucessos, amores que deram certo, lares feitos. Lhes demos netos e lhe enchemos de amor.
Crescidos tivemos filhos que
partilhamos com ela. Sim ela cuidou de cada neto para que pudéssemos trabalhar
tranquilos, certos de que deixávamos nossos filhos bem cuidados e amados.
Crescidos mostramos a ela que os ensinamentos do verbo partilhar se perpetuariam e nos acompanhariam graças ao seu exemplo e dedicação.
Lição compartilhada.


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