Primeiro dia de Finados sem ela, a minha mãe, mas aqui tem sido
finados todos os dias desde que ela se foi.
Todos já sofremos perdas irreparáveis, doloridas, marcantes,
que nos deixam desolados e entristecidos, mas perder um ente amado para a
pandemia é algo que nos deixa amortecidos. Tentar entender tudo o que aconteceu parece
não caber em nossas mentes e corações.
Fragilizados pelo distanciamento, buscamos respostas que não
encontramos, procuramos ritualizar a falta do ritual, para acomodar a tristeza que
craveja nossos sentimentos.
Isolados devido à doença, nos sentimos sozinhos, feridos, adoecidos
da alma.
Infectados da dor, da culpa, do desassossego nos faltam abraços,
nos falta colo.
Colonizados pelo remorso falta-nos resistência para sair do
luto que nos aprisiona.
A separação na circunstância da Covid é doída, doida,
duradoura. Não deixa distrair-nos da sua presença.
Minha mãe se foi e nos deixou em pedaços. A cada dia nos levantamos,
recolhemos nossos pedaços e saímos por nossas estradas.
Choramos, lamentamos, refletimos, caímos, levantamos.
Oramos, gritamos, pranteamos, queixamos, entendemos.
Nos apegamos à lembrança e conselhos. Vemos fotos e vídeos
para recordarmos de quem fomos junto a ela, pois já não somos mais os mesmos.
Enlutados, tentamos nos distrair e encontrar beleza em
nossos dias e encontros.
Outro dia encontrei estas palavras que cuidaram do meu coração e acordaram em mim o jeito conselheiro da minha
mãe. Acredito que nos momentos de desânimo ela nos falaria isso:
"Promete que vai se cuidar quando eu não
estiver mais por perto, que vai guardar minhas palavras numa caixinha secreta.
Promete que não vai desistir dos seus sonhos, que vai refazer muitos planos e
não vai desistir de você. Promete não me esquecer, que vai me lembrar num dia de
chuva ou quando a noite silenciar o dia. Promete não se abandonar nessa
estrada, que vai se dar colo quando vier o cansaço e não vai deixar de sorrir.
Me guarda no seu coração, leva o meu carinho pra rua. Me ajeito em qualquer
cantinho. Só não me esqueça numa gaveta escura." (Eunice Ramos).
Sim, eu prometo! Prometo tentar e conseguir.
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