"Mãe arruma a barra dessa calça pra mim!"
"Mãe passa esse vestido para a formatura, por favor"
"Mãe faz uma marmita pra mim!"
"Mãe faz a comida X que estou com vontade."
Todas essas frases e muitas outras foram minhas à minha mãe em muitas ocasiões e ela sempre prontamente me atendia.
Todas essas frases e muitas outras são da minha filha à mim.
Este texto nasceu na minha mente dias atrás quando Rapha me pediu para passar um vestido para ir a um casamento.
Imediatamente me lembrei dos pedidos que fazia e da ajuda da minha mãe.
Nunca fui boa, interessada e prestimosa nos serviços domésticos como era a minha mãe. Queria mesmo era estudar, ler, escrever, criar. Dedicava meu tempo ocioso a essas tarefas.
Quando fui mãe tive um respaldo imenso dela. Não fosse ela tão pacífica e amorosa me ajudando em cada fase da minha bebê acho que teria sucumbido ao deserto que atravessava.
Quando fui morar sozinha com a Rapha também. Ela foi minha estrutura, suporte, apoio.
Sinto tanto não ter podido fazer a ela ao mais do que fez por mim.
Enquanto eu passava o vestido esses pensamentos me tomavam e era dezembro.
E dezembro sempre mexe muito comigo num misto de alegria, saudosismo, recordações da infância, esperança em dias melhores, desejo de aceitação, encontros em família...
Ferro a passar e os pensamentos em minha mãe e filha: 'gosto muito de ti para sempre', 'obrigada por existires', um 'estou aqui para ti, sempre'.
Ferro alisando o tecido amassado junto com as memórias de abraços apertados, palavras fortalecedoras, gargalhadas altas, colo aconchegante, ombros que seguram sem prazo de validade.
Ferro deslizando quente sobre a peça lilás e meus pensamentos pedindo que lhes cheguem olhos que brilham, palavras que protejam e cuidem, e ainda que haja uma luz ao fundo do túnel para cada escuridão a enfrentar.
Minha filha, minha mãe, pedaços indissolúveis de mim.

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