segunda-feira, 7 de agosto de 2023

2.9 Das coisas que ficaram

 



 

Muitas coisas ficaram sem vida depois da sua partida.

Seu jardim, suas samambaias e orquídeas sofrem a ausência dos seus cuidados.

O fogão, agora descansa com o pouco uso. 

E a cozinha é pouco aquecida pelo fogo da chama que quase não apagava. 

As panelas estão  a repousar.

A boleira e as travessas de servir doces permanecem nos armários.

Das coisas que ficaram, algumas nos fizeram reaprender o riso.

Das coisas que ficaram, algumas nos machucam os olhos ao lembrar a sua falta.

Das coisas que ficaram, algumas nos confortam e nos enchem da sua presença.

Das coisas que ficaram, muitas estão impregnadas do seu jeito, da sua honestidade.

Das coisas que ficaram, ainda tem o pó de arroz, o batom e os esmaltes que continuo usando para ter-te um pouquinho comigo.

Mulher de pouca vaidade e muita dignidade, não era de excessos, o uso da maquiagem era leve, dosado,  bem moderado. Prezava a naturalidade, sem disfarces.

Mas, o pó, o batom e os esmaltes clarinhos lhe faziam gosto.

 E eu, faço gosto de usá-los partilhando das coisas que ficaram, além da saudade.

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