domingo, 7 de maio de 2023

2.6 Entre linhas, agulhas e saudade

 


Eu aqui fazendo um pequeno reparo para minha filha e as lembranças invadindo a alma fazendo brotar dos olhos um mar de saudade.

Guardo em muitas peças de roupa trabalho amoroso feito por minha mãe.

As barras das calças, os remendos artesanais naquela roupa que tinha um furo, da qual não queria me desfazer, o aperto na peça frouxa e a expansão naquela que ficara apertada.

Ajustes, arrumações, arremates que colocavam a peça em uso.

Alegria gerada nos alinhavos.

Cerzindo tornava útil as roupas, transformando-as dava-lhes função.

Cerzindo transformava retalhos em colchas, tapetes, toalhas, cortinas.

Cerzindo espalhava cuidado, criatividade, amparo.

No passado ela mesma fazia nossas roupas. Sim, sem condições de comprar peças em lojas, as mesmas eram produzidas em casa, com tecidos comprados ou ganhados.

E lembro que não havia recusas, caras feias, queixas ao receber as peças. Recebíamos com muito carinho e agradecimento.

Pouco aprendi do ofício, mas entendo o seu valor, sei da sua serventia e do proveito desta tarefa.

Mais do que a utilidade conheço de perto o afeto com que minha mãe fazia esse trabalho. Tamanha aplicação que sou capaz de sentir o amor impregnado em cada peça.

Ainda toco as peças carinhosamente sabendo que ali tenho um carinho seu.

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