sábado, 7 de setembro de 2024

3. 10 E o que a gente vira quando vai embora de alguém?

 



 

E o que a gente vira quando vai embora de alguém?

E senhô respondeu:

- Uns viram pó - outros caem, igual as estrelas lá do céu. Alguns só viram a esquina - mas, tem uns que nunca vão embora...

- Não!? E eles ficam donde, senhô?

- Ficam num lugar chamado saudade..."

(Caio Fernando Abreu)

 

Ah esse lugar chamado saudade!!

Se eu fosse descrevê-la seria um lugar fechado, pequeno e acinzentado cheio de pontinhos que tornam-se brilhantes quando uma recordação amorosamente interrompe a vida compromissada e nos permite um devaneio.

É assim...  Quando nos distraímos da correria e  das exigências diárias, as interrupções saudosas se permitem chegar através de uma música, de um cheiro, de uma comida, uma peça de roupa ou um objeto trazendo a presença de quem jamais iremos esquecer.

E quando entro nesse espaço chamado saudade inúmeras luzes se acendem. Outro dia, caminhando, num desses devaneios, acendeu a luz da lembrança da minha mãe e dos muitos brinquedos extraídos da natureza que ela inventava para nós.

Ao ver vários pequenos cones caídos dos eucaliptos saltaram em minha memória as pulseirinhas e colares feitos por ela para nos entreter e estimular, usando linha e agulha.

Outro brinquedo que me lembro, quase toda vez que descasco uma laranja é das dentaduras feitas das cascas. Era só cortar uma tirinha, picotar em zigue-zaque que os dentes estavam formados e a gente brincava e ria muito.

E como não lembrar do jogo “ 5 marias” feito com pedrinhas ou saquinhos de arroz costurados?  A foto que acompanha este texto mostram as 5 Marias feitas por ela para minha filha.

E o que falar da peteca de palha de milho sendo arremessada de um lado para o outro sem dó nem piedade?

Esse lugar chamado saudade, feito carrossel vai girando e trazendo as memórias de dias ora quentes, ora frios,  noites iluminadas por conversas entusiasmadas entardeceres despretensiosos, quando  vivíamos sem nos preocupar com o fim que poderia um dia, remotamente chegar.

O fim era longínquo. Parecia que tínhamos a vida sob controle na palma da mão.

 

 

 

 

 

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