E o que a gente vira quando vai embora de alguém?
E senhô respondeu:
- Uns viram pó - outros caem, igual as estrelas lá do céu.
Alguns só viram a esquina - mas, tem uns que nunca vão embora...
- Não!? E eles ficam donde, senhô?
- Ficam num lugar chamado saudade..."
(Caio Fernando Abreu)
Ah esse lugar chamado saudade!!
Se eu fosse descrevê-la seria um lugar fechado, pequeno e acinzentado
cheio de pontinhos que tornam-se brilhantes quando uma recordação amorosamente
interrompe a vida compromissada e nos permite um devaneio.
É assim... Quando nos
distraímos da correria e das exigências
diárias, as interrupções saudosas se permitem chegar através de uma música, de um
cheiro, de uma comida, uma peça de roupa ou um objeto trazendo a presença de
quem jamais iremos esquecer.
E quando entro nesse espaço chamado saudade inúmeras luzes
se acendem. Outro dia, caminhando, num desses devaneios, acendeu a luz da
lembrança da minha mãe e dos muitos brinquedos extraídos da natureza que ela
inventava para nós.
Ao ver vários pequenos cones caídos dos eucaliptos saltaram
em minha memória as pulseirinhas e colares feitos por ela para nos entreter e
estimular, usando linha e agulha.
Outro brinquedo que me lembro, quase toda vez que descasco
uma laranja é das dentaduras feitas das cascas. Era só cortar uma tirinha,
picotar em zigue-zaque que os dentes estavam formados e a gente brincava e ria
muito.
E como não lembrar do jogo “ 5 marias” feito com pedrinhas ou saquinhos de arroz costurados? A foto que acompanha este texto mostram as 5 Marias feitas por ela para minha filha.
E o que falar da peteca de palha de milho sendo arremessada
de um lado para o outro sem dó nem piedade?
Esse lugar chamado saudade, feito carrossel vai girando e
trazendo as memórias de dias ora quentes, ora frios, noites iluminadas por conversas entusiasmadas
entardeceres despretensiosos, quando
vivíamos sem nos preocupar com o fim que poderia um dia, remotamente
chegar.
O fim era longínquo. Parecia que tínhamos a vida sob
controle na palma da mão.
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