Mês passado foi aniversário de 80
anos do meu pai. Ao olhar para ele, ali
em frente à mesa do bolo, consegui identificar dois sentimentos: gratidão
misturada com reconhecimento.
Ver aquele rosto magro, fino,
cheio das marcas vivas do cansaço de uma
vida difícil permeado por 73 anos de trabalho (sim, ele começou a trabalhar aos
7 anos!) só me fez pedir a Deus que continue enchendo-o da fibra e vitalidade
que o sustenta todos os dias, da qual nós filhos, noras e netos nos alimentamos.
Ele conta incansavelmente das
tarefas no sítio, colocadas por seu pai, desde menino. E quando crescido mais
um pouco, virou pequeno empreendedor, negociando
galinhas, porcos, ovos e tudo mais que pudesse, inclusive a porcentagem do
milho que lhe cabia na plantação com seu
pai.
Ao casar encontrou a minha mãe
que foi seu esteio sempre.
Franzina, ela sempre foi grande
na sua estatura de mulher, mãe, amiga.
E o velho ditado cabe tão bem
aqui: “À frente de um grande homem, há
sempre uma grande mulher”. E com muito sangue, suor, lágrimas e trabalho, os dois construíram grandezas.
E tudo isso não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza. Riqueza que o
dinheiro não compra.
E acho bonito que hoje, na
ausência da minha mãe; ele reconhece TUDO que ela representou como companheira
fiel, dedicada, corajosa, bondosa, trabalhadora, íntegra, consciente, moderada
e muito sábia.
E ao colocá-la como centro das
suas conquistas, ele a coloca no lugar de onde nunca saiu, onde persistiu, onde
fez diferença, onde conseguiu transformar pó em ouro.
E finalizo repetindo: isso não é sobre herança. É sobre outro tipo
de riqueza.

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