quarta-feira, 9 de julho de 2025

4. 6 A lição da árvore

 


Amo árvores e para mim elas são uma lição de vida exponencial. Tenho a mania de ao me defrontar com uma árvore que me chama atenção, compará-la a alguém que conheço, traçando linhas de semelhança. E o encontro vira poesia!

Pensar em cada etapa do seu crescimento, na aceleração silenciosa do brotamento,  na escala de aprofundamento das raízes, na multiplicação das folhas e frutos , na modelagem das flores, nos intervalos das floradas. Extasiante!

Então, penso nas árvores como abrigo. Quantos ínfimos seres habitam um só exemplar? Quanta guarida para quem a procura para ali viver! Quanta biodiversidade numa única espécie! Um ecossistema  para muitas comunidades em interação contínua.

Exposto tudo isso,  falo da árvore que minha mãe simboliza para mim.

Minha mãe foi meu abrigo do ventre até sua partida. Sua sombra me protegeu, mesmo quando eu me distanciei. Seus galhos suportaram o peso das minhas  intempéries. Suas raízes foram força nas minhas indecisões. Seus frutos foram meu alimento desde a concepção.

Enquanto eu crescia, ela, da sua altura me seguia atenta, observadora e silenciosa. 

Sentia tudo, percebia tudo e discreta me acolhia.

Compreendia as minhas fotossínteses.

E eu seguia, segura de mim e do meu esteio...

Agora tenho toda a compreensão que antes me faltava. 

Só dei fruto porque sua ancestralidade me permitiu e suas sementes habitavam meu âmago.

Só sou flor porque sua beleza humana me ensinou a florir.

E são fortes as minhas  raízes porque  sua segurança  foi meu sustento.

Sei de tudo agora: ainda posso descansar sob sua  escultura frondosa.

sábado, 8 de março de 2025

4.3 : ...“Por trás de uma grande mulher há sempre GRANDES MULHERES”.

 



 

 

Escrevo este texto hoje dia 8 de março, Dia internacional das mulheres.

E “se for para falar de uma mulher forte, falarei primeiro da minha mãe”: forte, doce, compreensiva, trabalhadora, cuidadosa, amável, educada, resiliente e tantos outros adjetivos.

Pensando em como escrever lembrei de um texto escrito pela minha filha Raphaela em homenagem a sua avó, elaborado há mais de um ano atrás.

E hoje, aqui, vou usar alguns trechos . Ela escreve assim: ...“Por trás de uma grande mulher há sempre GRANDES MULHERES”.

... “Quando olho para trás vejo minha mãe, um MULHERÃO... E é claro que por trás dela quem sempre esteve presente foi o ESTEIO chamado Nair- uma FORTALEZA , que cuidou dos filhos, netos,  marido, vizinhos, amigos, amigos dos amigos, animais, plantas e de tudo ao seu redor.”

... “Cuidou de mim desde meu nascimento, me criou, fazia penteados para eu ir à escola arrumadinha, cozinhava delícias para a família como asinha de frango com arroz e feijão, que amo, e hoje não tem a mesma graça de comer sem serem feitas por ela.”

... “Prefiro olhar para trás e ver a grande NAIR que gerou minha mãe, que me gerou e confirmar: “Por trás de uma grande mulher há sempre GRANDES MULHERES”.

Ah, como fico feliz em ver que a Raphaela se tornou também um MULHERÃO seguindo os princípios herdados por minha mãe, numa corrente que desejo que se perpetue sempre e sempre.

Certamente ela, minha mãe, torce e aplaude todas as nossas conquistas.

4.2- Hoje ainda sou a Natália.

 



Outro dia li uma matéria tocante contando sobre  o luto da  chimpanzé  Natália , residente no  de Valência, na Espanha. Ela deu à luz, mas perdeu seu filhote 14 dias depois.

Natália não se conformou com a perda e carregou o filhote falecido por 3 meses junto a si por três meses.

A equipe do zoológico entendeu e respeitou sua dor, monitorou o caso e ao longo dos dias Natália foi processando a sua perda.

O caso me chamou muita atenção, me emocionou e também me impactou muito.

Fiquei a pensar, sentir e associar o caso com o meu luto, mesmo num papel invertido.  Hoje 4 anos e 2 meses revivi a dor do falecimento da minha mãe através deste acontecimento: a dor que obriga a deixar ir, a resistência ao distanciamento que consome a alma, a busca pela conformação, a luta pelas compensações emocionais diárias.

A conexão emocional precisa de tempo para que o “desligamento” ocorra. Na verdade ele não ocorre, apenas nos acostumamos a viver sem a presença física da pessoa amada.

Seguimos em frente, continuamos nossa rotina, fazemos planos, passeamos, relembramos e  a vida continua. Mesmo com um pedaço nosso faltando.

Ontem eu fui a Natália.

Hoje ainda sou a Natália.

4.1-Estejam nas fotos

 



 

Semana passada recebemos essa foto no grupo da família. Impossível não olhar para esses rostinhos sem sentir a presença da minha mãe sorrindo amorosamente.

Na foto estavam os seus grandes amores, todos reunidos, num tempo em que todos podíamos nos reunir alegrados pelo amor que nos juntava num forte elo.

E veio então a promessa de refazerem a foto... E certamente os primos se esforçarão para isso.

Eles sabem, que um dia serão as fotos que ficarão e que os levarão há um tempo passado, “pedacinhos soltos de felicidade”.

Que estejamos nas fotos! 

O cabelo está bagunçado? Saia na foto!

A roupa não está combinando? Entre na foto!

Está sem maquiagem? E daí?

Está fora do peso? Faça pose assim mesmo!

Nada disso importará quando alguém se for. Relevante será a história por contar daquele momento, afinal as fotos marcam momentos de encantamento, de êxtase, de maravilhamento vividos com os nossos queridos.

Esteja nas fotos! Mostre que se importa. Não corra o risco de ter sua ausência apagada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

4.0- “QUANDO PENSO EM ALGUÉM, SÓ PENSO EM VOCÊ”

 


 

E lá se vão 4 anos...

A  dor da ausência amenizada pelo tempo, vez ou outra, revira nossos pensamentos e salta em forma de memória.

Vou tentando colocar em palavras, os sentimentos que me abraçam todo dia, tantas vezes quando lembro de você.

“MUDARAM AS ESTAÇÕES, TUDO  MUDOU E NADA VAI CONSEGUIR MUDAR O QUE  O QUE FICOU...” eu canto aqui Renato Russo escrevendo esta homenagem.

Sim, o tempo passou, muita coisa mudou, muitas  alterações aconteceram, gente nova chegou em nossa família, alguns se afastaram,   as crianças, seus netos tão amados, cresceram muito rápido e seguem suas vidas, como nós os seus pais.

Sim, “TÁ TUDO ASSIM, TÃO DIFERENTE”. Nada mais  acontece como antes, quando tínhamos a sua presença física. Há uma falta, uma ausência por nada preenchida.

Consola-nos saber que o amor que repartiu reverbera aqui entre aqueles que te conheceram, te amaram, desfrutaram do seu afeto.

Sim, embora sabendo que  “O PRA SEMPRE,  SEMPRE ACABA...” ainda sentimos diariamente a falta, lamentando o ninho vazio das suas asas protetoras, da sua quentura  maternal e tão acolhedora.

E quando canto o trecho “ESTAMOS INDO DE VOLTA PRA CASA” me vem a certeza do nosso reencontro, que sabemos ser verdade única.

“QUANDO PENSO EM ALGUÉM, SÓ PENSO EM VOCÊ” e certamente é isso que alavanca nossa caminhada e a continuidade dos nossos sonhos e planos.

E AÍ, ENTÃO, ESTAMOS BEM...

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

3.11 Cama de mãe- quente e colhedora

 



Aproveitei muito a cama da minha mãe. Na infância meu pai viajava muito para comprar gado. Ficava dias fora de casa e só voltava quando conseguia fechar a carga do caminhão.

Ele ia passando pelos sítios e fazendas comprando os animais e isso demorava dias. Mais tarde, ele continuou ficando fora por dias para cuidar do sítio. E ela ficava ali cuidando de nós, da casa, das coisas do meu pai.

Nessas ocasiões eu dormia na cama da minha mãe. Ah como era bom! Uma sensação de proteção, de proximidade, de inteireza. Os cheiros ainda me chegam quando os pensamentos migram  para aquele tempo, assim como as sensações boas que eu sentia.

Às vezes ríamos muito de alguma situação lembrada ou comentada. Dava crise de risos e o sono até ia embora. Quando uma aquietava, a outra recomeçava a rir. Demorava muito para o sono reaparecer.

Naquela época eu não tinha dimensão do quão forte e corajosa ela era. Sozinha, cuidando dos quatro filhos e suas demandas, da fazenda que meu pai administrava e até dos funcionários.

Mais tarde, nos mudamos da fazenda, mas meu pai continuava indo para o sítio, então algumas vezes,  ela ia dormir em casa e na minha cama. Sua companhia me fazia matar a  saudade da infância. Quando a luz apagava eu ficava de olhos abertos, lembrando dos tempos passados em que eu era apenas uma menina cheia de sonhos e desejos por realizar.

 Nessa época eu já era mãe e dormíamos as 3 na mesma cama. Vivência que não tem preço que pague. E eu tinha ali naquele pequeno espaço retangular, as duas pessoas mais importantes da minha vida. Eu tinha tudo que precisava ali. O mundo podia até parar...


sábado, 7 de setembro de 2024

3. 10 E o que a gente vira quando vai embora de alguém?

 



 

E o que a gente vira quando vai embora de alguém?

E senhô respondeu:

- Uns viram pó - outros caem, igual as estrelas lá do céu. Alguns só viram a esquina - mas, tem uns que nunca vão embora...

- Não!? E eles ficam donde, senhô?

- Ficam num lugar chamado saudade..."

(Caio Fernando Abreu)

 

Ah esse lugar chamado saudade!!

Se eu fosse descrevê-la seria um lugar fechado, pequeno e acinzentado cheio de pontinhos que tornam-se brilhantes quando uma recordação amorosamente interrompe a vida compromissada e nos permite um devaneio.

É assim...  Quando nos distraímos da correria e  das exigências diárias, as interrupções saudosas se permitem chegar através de uma música, de um cheiro, de uma comida, uma peça de roupa ou um objeto trazendo a presença de quem jamais iremos esquecer.

E quando entro nesse espaço chamado saudade inúmeras luzes se acendem. Outro dia, caminhando, num desses devaneios, acendeu a luz da lembrança da minha mãe e dos muitos brinquedos extraídos da natureza que ela inventava para nós.

Ao ver vários pequenos cones caídos dos eucaliptos saltaram em minha memória as pulseirinhas e colares feitos por ela para nos entreter e estimular, usando linha e agulha.

Outro brinquedo que me lembro, quase toda vez que descasco uma laranja é das dentaduras feitas das cascas. Era só cortar uma tirinha, picotar em zigue-zaque que os dentes estavam formados e a gente brincava e ria muito.

E como não lembrar do jogo “ 5 marias” feito com pedrinhas ou saquinhos de arroz costurados?  A foto que acompanha este texto mostram as 5 Marias feitas por ela para minha filha.

E o que falar da peteca de palha de milho sendo arremessada de um lado para o outro sem dó nem piedade?

Esse lugar chamado saudade, feito carrossel vai girando e trazendo as memórias de dias ora quentes, ora frios,  noites iluminadas por conversas entusiasmadas entardeceres despretensiosos, quando  vivíamos sem nos preocupar com o fim que poderia um dia, remotamente chegar.

O fim era longínquo. Parecia que tínhamos a vida sob controle na palma da mão.

 

 

 

 

 

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...