quarta-feira, 8 de julho de 2026

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho



Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro para sempre.”

Pesquisando mais a fundo descobri que essa troca de células entre mãe e bebê chama-se microquimerismo.

Sim, células da mãe podem permanecer no organismo dos filhos por muitos anos e as dos filhos podem se aninhar nas da mãe por décadas. Impressionante!

Imediatamente esses escritos foram se construindo na minha mente. Uma enxurrada de lembranças da minha profunda história com minha mãe: contato, tato, cheiros, conversas, contradições, construções, combinações de tantos momentos.

A ligação forte, visceral, penetrante poderia ser simplesmente explicada por questões afetivas. Carregar um filho no corpo é uma sobrecarga que guardará transformações  físicas imensas: hormonais, cardíacas, digestivas, respiratórias, ósseas, posturais e muito mais. Todas essas mudanças somadas às informações emocionais envolvidas ficarão registradas para sempre. Um que vira dois.

Conhecendo de perto o papel de filha e mãe, consigo sentir essa conexão, que muitas vezes, deixa de encontrar palavras capazes de explicá-la. Busco respostas na natureza,  nos detalhes,  na alma, em Deus,   que cuidam de fazer algo maior: manter a simbiose física e emocional  que alimenta, cura, repara e restaura o espírito.

Vejo o amor filial como um vínculo  consistente, poderoso e indestrutível. Um laço que jamais será desfeito, que se constrói no cotidiano recebimento de afeto, cuidado, proteção. É sobre ter origem e não ser ou estar só nessa imensidão chamada vida.

Já o amor materno é um sentimento multifacetado,  que  junta processos neurológicos, afetivos, reunindo emoção, psicologia e cultura. É apego e soltura, proteção e lançamento, revezamento entre torcida e reza. Difícil explicar o inexplicável.

Há ainda toda a dimensão espiritual que transcende qualquer medida ou definição.

Este exercício de relembrar fatos da minha vida com minha mãe, de reunir ideias  tiradas das experiências guiam meus dias esvaziados do seu olhar intensamente compreensivo  que me preenchia e aconchegava me fazendo sentir seu cuidado onde eu estivesse e  hoje transbordam saudade,  que lanço em forma de palavras ‘amorizadas’.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

5.1- Amor não morre, vira laço.

 


Quando perdemos alguém vital à nossa existência acordamos diariamente com uma sensação de falta, vazio. O mundo muda. Nossa visão muda.

Saber que não haverá mais aquele olhar terno, único; aquela voz cheia de amor; e aquele colo que te esperava a qualquer hora; aquela segurança invisível é dor avassaladora.

E, a cada dia levantamos incompletos e obrigados a recalcular a rota, seguindo a trajetória e levando a sua presença em nossa alma e coração.

Recalculando o caminho, embrulhamos a dor da saudade e levamos  conosco o amor permanecido em nós, que fica vivo numa conexão além vida.

Os amores desencarnados permanecem em nós, especialmente quando desejamos que fiquem, quando fazemos questão de lembrar e criar maneiras de reforçar sua importância.

E foi assim, que o neto Felipe leva no bolso, o lenço da avó Nair, na formatura da irmã, Ana Júlia. Homenagem terna, amorosa e repleta de simbolismo.

Além de desejar e sentir sua presença invisível, ter com ele,  a sua  representação trazendo-a no bolso, coladinha, como se abraçasse  seu corpo, é gesto que honra a vida da avó.

E assim, aqui, cada um de nós segue na missão de honrar seu nome, levando adiante o seu legado. Sabemos que o amor não morre, vira laço.

sábado, 8 de novembro de 2025

5.0 Sabor de saudade



Ao lembrar da data que comemora 5 anos da sua partida, uma história vivida pela minha sobrinha.

Uma mordida num pedaço de torta de frango e um mundo de saudades saliva a boca da moça que só queria naquele momento saciar a sua fome.

O simples pedaço de torta foi capaz de mexer com suas emoções de uma vida inteira, que soma 27 anos.

O sabor da saudade atravessa o lanche e foi impossível comer a fatia sem que um nó se fizesse em sua garganta e uma lágrima descesse pelo seu rosto.

O gosto de cada elemento combinado em sua boca a reportou ao tempo da infância, em que a avó preparava a tal torta para levar nas viagens anuais à Aparecida do Norte.

A torta tem agora gosto de sono quebrado com os sustos das freadas do motorista,  chacoalhadas na poltrona pouco confortável durante a madrugada, peregrinação às igrejas e praças, orações de agradecimentos e pedidos,  lanches socializados entre os amigos e compras de suvenires na feira e barracas de rua.

E então, as lembranças se juntam e ela chama o pai para desfrutar do gosto que aperta o peito, ao mesmo tempo que parece aproximar daquela que partiu há 5 anos.

Nessa hora bateu na moça uma vontade de subir a rua, andar 3 quarteirões, bater na porta e ser atendida por aquele sorriso doce e voz calma, mas isso só aconteceu mesmo na força dos seus pensamentos. Lembrou que não seria possível realizar o desejo de rever aquela cuja ausência sustenta um vazio enorme no peito e sangra vez ou outra, como sangrava agora.

 O amor ficou sem endereço?

Às vezes procura olhando pro céu, outras depositando flores no gramado do seu túmulo, em outras tocando seus objetos ou  fazendo as coisas que a representam.

Hoje ela encontrou seu endereço num pedaço de torta de frango...

 

4.11 Ensinamentos genuínos

 


Com quem mais minha filha aprenderia a fazer biscoito de polvilho na folha da bananeira?

Honrar quem partiu vivendo o que ficou é uma forma de  falar da vida que segue, mesmo quando a saudade ainda pulsa latente.

Por isso, tento fazer das lembranças um lugar que conta do vivido, do amado, do admirado, do que me moldou; sem querer apagar a memória que me traz aqui, hoje.

Por isso escrevo, conto e retrato em palavras,  o vazio de um lugar que nada, nem ninguém consegue ocupar.

Dou licença para a saudade se achegar no café sem a sua companhia, na receita que tento refazer, na roupa que lembra dos dias festivos,  na xícara  que me foi dada de presente, nas fotos saudosas.

E nas lembranças, sem dúvida nenhuma, vem  a gratidão por todo cuidado com a nossa família, sem deixar de citar todo empenho na criação da minha Raphaela e a grandeza da sua  representação para ela.

Detalhes tão sutis, companhia tão profunda, toques  repletos de significância, ensinamentos especialmente genuínos.

E então repito a pergunta inicial:

Com quem mais minha filha aprenderia a fazer biscoito de polvilho na folha da bananeira?

 

 

 

quarta-feira, 9 de julho de 2025

4. 8 Fio do “Para sempre”

 



 

Segundo uma lenda japonesa existe um  fio vermelho do destino,  no qual todas as pessoas estão amarradas pelo dedo mindinho.

Esse  fio vermelho invisível nos levará à outra pessoa com quem faremos história, com quem estamos predestinados.

Penso que assim, os filhos se ligam às suas mães. Numa união indestrutível de sentimentos ficamos ligados para sempre. Não importa o tempo, o lugar ou a circunstância, o caminho já está escrito.

O fio vermelho do “para sempre” liga os filhos às mães até quando elas já se foram deste mundo e vivem lá num lugar chamado eternidade.

Inquebrável, o fio pode ser esticado, encolhido, emaranhado, enlaçado chegando até lá pelos pensamentos, memórias, lembranças, sensações.

Fio vermelho do amor eterno,  da ligação profunda, que faz magia no coração e na mente daqueles para quem o antes, o durante e o depois não se contam com o tempo cronológico.

Todo dia, meu fio vermelho ligado com minha mãe, puxa, estica, embaraça, enlaça e nos conecta pelos pensamentos, memórias, lembranças, e sensações num profundo e significativo encontro.

Neste momento, meu fio vermelho está brilhando em luzes douradas, fazendo faíscas, num encontro de almas que não se distanciarão jamais.

4. 7 Não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza

 



 

Mês passado foi aniversário de 80 anos do meu pai.  Ao olhar para ele, ali em frente à mesa do bolo, consegui identificar dois sentimentos: gratidão misturada com reconhecimento.

Ver aquele rosto magro, fino, cheio das marcas vivas do cansaço  de uma vida difícil permeado por 73 anos de trabalho (sim, ele começou a trabalhar aos 7 anos!) só me fez pedir a Deus que continue enchendo-o da fibra e vitalidade que o sustenta todos os dias, da qual nós filhos, noras e netos nos alimentamos.

Ele conta incansavelmente das tarefas no sítio, colocadas por seu pai, desde menino. E quando crescido mais um pouco, virou  pequeno empreendedor, negociando galinhas, porcos, ovos e tudo mais que pudesse, inclusive a porcentagem do milho que lhe cabia na plantação com  seu pai.

Ao casar encontrou a minha mãe que foi seu esteio sempre.

Franzina, ela sempre foi grande na sua estatura de mulher, mãe, amiga.

E o velho ditado cabe tão bem aqui:  “À frente de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. E com muito sangue, suor,  lágrimas e trabalho, os dois construíram grandezas. E tudo isso não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza. Riqueza que o dinheiro não compra.

E acho bonito que hoje, na ausência da minha mãe; ele reconhece TUDO que ela representou como companheira fiel, dedicada, corajosa, bondosa, trabalhadora, íntegra, consciente, moderada e muito sábia.

E ao colocá-la como centro das suas conquistas, ele a coloca no lugar de onde nunca saiu, onde persistiu, onde fez diferença, onde conseguiu transformar pó em ouro.

E finalizo repetindo:  isso não é sobre herança. É sobre outro tipo de riqueza.

 

4. 5 Honrando a minha mãe

 




O dia 7 de cada mês é sempre um dia que lembro da partida da minha mãe. E neste 7 de abril estava em Amsterdam realizando um sonho antigo.

Nem por isso, o dia me passou despercebido.

Logo de manhã acordei e pensei “Hoje é dia 7 e completam 4 anos e 5 meses que estou sem minha mãe. No entanto estou cumprindo uma  recomendação dela.

Explico.

Dias antes da minha mãe falecer, estamos eu, ela e a Rapha em casa. Nós duas com Covid e a Rapha não.

Neste dia percebi que minha mãe estava pior, com a respiração ofegante, muita diarréia, muito debilitada.

Eu e a Rapha deitamos perto dela, fizemos ligações de vídeo para a família tentando animá-la e conversamos bastante.

Não sei porque, mas começamos a falar de viagens, das que eu e a Rapha queríamos fazer no futuro. E ela nos recomendou “ Isso mesmo, aproveitem a vida, façam tudo o que eu não pude fazer”.

Ela falou queixosa, lembrando por todas as dificuldades que passou no casamento, na criação dos filhos, nos trabalhos realizados.

Não contávamos que em dias ela partiria, deixando conosco esta última conversa. Estava  sensível por lembrar de tudo isso e ao mesmo tempo,  feliz por estar realizando esta viagem com minha filha, conhecendo e aprendendo tanto.

E neste dia,  eu vim às lágrimas nas duas visitas que fiz. No Casa da Anne Frank chorei pela história triste,  pelos medos enfrentados, pelos relatos emocionantes do livro-diário, pelas vítimas que não tiveram chance de sobreviver. Era tão intenso estão pisando naquele chão, tocando aquelas paredes...

No Museu Van Gogh chorei pela alegria de estar ali vendo tão de perto cada pincelada que compunha suas obras. Chorei pelas boas lembranças de tantos projetos que coordenei enquanto diretora de escola trazendo vida às suas obras através da sensibilidade dos estudantes.

É, só eu e a Rapha sabemos  significado desta viagem.




4. 6 A lição da árvore

 


Amo árvores e para mim elas são uma lição de vida exponencial. Tenho a mania de ao me defrontar com uma árvore que me chama atenção, compará-la a alguém que conheço, traçando linhas de semelhança. E o encontro vira poesia!

Pensar em cada etapa do seu crescimento, na aceleração silenciosa do brotamento,  na escala de aprofundamento das raízes, na multiplicação das folhas e frutos , na modelagem das flores, nos intervalos das floradas. Extasiante!

Então, penso nas árvores como abrigo. Quantos ínfimos seres habitam um só exemplar? Quanta guarida para quem a procura para ali viver! Quanta biodiversidade numa única espécie! Um ecossistema  para muitas comunidades em interação contínua.

Exposto tudo isso,  falo da árvore que minha mãe simboliza para mim.

Minha mãe foi meu abrigo do ventre até sua partida. Sua sombra me protegeu, mesmo quando eu me distanciei. Seus galhos suportaram o peso das minhas  intempéries. Suas raízes foram força nas minhas indecisões. Seus frutos foram meu alimento desde a concepção.

Enquanto eu crescia, ela, da sua altura me seguia atenta, observadora e silenciosa. 

Sentia tudo, percebia tudo e discreta me acolhia.

Compreendia as minhas fotossínteses.

E eu seguia, segura de mim e do meu esteio...

Agora tenho toda a compreensão que antes me faltava. 

Só dei fruto porque sua ancestralidade me permitiu e suas sementes habitavam meu âmago.

Só sou flor porque sua beleza humana me ensinou a florir.

E são fortes as minhas  raízes porque  sua segurança  foi meu sustento.

Sei de tudo agora: ainda posso descansar sob sua  escultura frondosa.

sábado, 8 de março de 2025

4.3 : ...“Por trás de uma grande mulher há sempre GRANDES MULHERES”.

 



 

 

Escrevo este texto hoje dia 8 de março, Dia internacional das mulheres.

E “se for para falar de uma mulher forte, falarei primeiro da minha mãe”: forte, doce, compreensiva, trabalhadora, cuidadosa, amável, educada, resiliente e tantos outros adjetivos.

Pensando em como escrever lembrei de um texto escrito pela minha filha Raphaela em homenagem a sua avó, elaborado há mais de um ano atrás.

E hoje, aqui, vou usar alguns trechos . Ela escreve assim: ...“Por trás de uma grande mulher há sempre GRANDES MULHERES”.

... “Quando olho para trás vejo minha mãe, um MULHERÃO... E é claro que por trás dela quem sempre esteve presente foi o ESTEIO chamado Nair- uma FORTALEZA , que cuidou dos filhos, netos,  marido, vizinhos, amigos, amigos dos amigos, animais, plantas e de tudo ao seu redor.”

... “Cuidou de mim desde meu nascimento, me criou, fazia penteados para eu ir à escola arrumadinha, cozinhava delícias para a família como asinha de frango com arroz e feijão, que amo, e hoje não tem a mesma graça de comer sem serem feitas por ela.”

... “Prefiro olhar para trás e ver a grande NAIR que gerou minha mãe, que me gerou e confirmar: “Por trás de uma grande mulher há sempre GRANDES MULHERES”.

Ah, como fico feliz em ver que a Raphaela se tornou também um MULHERÃO seguindo os princípios herdados por minha mãe, numa corrente que desejo que se perpetue sempre e sempre.

Certamente ela, minha mãe, torce e aplaude todas as nossas conquistas.

4.2- Hoje ainda sou a Natália.

 



Outro dia li uma matéria tocante contando sobre  o luto da  chimpanzé  Natália , residente no  de Valência, na Espanha. Ela deu à luz, mas perdeu seu filhote 14 dias depois.

Natália não se conformou com a perda e carregou o filhote falecido por 3 meses junto a si por três meses.

A equipe do zoológico entendeu e respeitou sua dor, monitorou o caso e ao longo dos dias Natália foi processando a sua perda.

O caso me chamou muita atenção, me emocionou e também me impactou muito.

Fiquei a pensar, sentir e associar o caso com o meu luto, mesmo num papel invertido.  Hoje 4 anos e 2 meses revivi a dor do falecimento da minha mãe através deste acontecimento: a dor que obriga a deixar ir, a resistência ao distanciamento que consome a alma, a busca pela conformação, a luta pelas compensações emocionais diárias.

A conexão emocional precisa de tempo para que o “desligamento” ocorra. Na verdade ele não ocorre, apenas nos acostumamos a viver sem a presença física da pessoa amada.

Seguimos em frente, continuamos nossa rotina, fazemos planos, passeamos, relembramos e  a vida continua. Mesmo com um pedaço nosso faltando.

Ontem eu fui a Natália.

Hoje ainda sou a Natália.

4.1-Estejam nas fotos

 



 

Semana passada recebemos essa foto no grupo da família. Impossível não olhar para esses rostinhos sem sentir a presença da minha mãe sorrindo amorosamente.

Na foto estavam os seus grandes amores, todos reunidos, num tempo em que todos podíamos nos reunir alegrados pelo amor que nos juntava num forte elo.

E veio então a promessa de refazerem a foto... E certamente os primos se esforçarão para isso.

Eles sabem, que um dia serão as fotos que ficarão e que os levarão há um tempo passado, “pedacinhos soltos de felicidade”.

Que estejamos nas fotos! 

O cabelo está bagunçado? Saia na foto!

A roupa não está combinando? Entre na foto!

Está sem maquiagem? E daí?

Está fora do peso? Faça pose assim mesmo!

Nada disso importará quando alguém se for. Relevante será a história por contar daquele momento, afinal as fotos marcam momentos de encantamento, de êxtase, de maravilhamento vividos com os nossos queridos.

Esteja nas fotos! Mostre que se importa. Não corra o risco de ter sua ausência apagada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

4.0- “QUANDO PENSO EM ALGUÉM, SÓ PENSO EM VOCÊ”

 


 

E lá se vão 4 anos...

A  dor da ausência amenizada pelo tempo, vez ou outra, revira nossos pensamentos e salta em forma de memória.

Vou tentando colocar em palavras, os sentimentos que me abraçam todo dia, tantas vezes quando lembro de você.

“MUDARAM AS ESTAÇÕES, TUDO  MUDOU E NADA VAI CONSEGUIR MUDAR O QUE  O QUE FICOU...” eu canto aqui Renato Russo escrevendo esta homenagem.

Sim, o tempo passou, muita coisa mudou, muitas  alterações aconteceram, gente nova chegou em nossa família, alguns se afastaram,   as crianças, seus netos tão amados, cresceram muito rápido e seguem suas vidas, como nós os seus pais.

Sim, “TÁ TUDO ASSIM, TÃO DIFERENTE”. Nada mais  acontece como antes, quando tínhamos a sua presença física. Há uma falta, uma ausência por nada preenchida.

Consola-nos saber que o amor que repartiu reverbera aqui entre aqueles que te conheceram, te amaram, desfrutaram do seu afeto.

Sim, embora sabendo que  “O PRA SEMPRE,  SEMPRE ACABA...” ainda sentimos diariamente a falta, lamentando o ninho vazio das suas asas protetoras, da sua quentura  maternal e tão acolhedora.

E quando canto o trecho “ESTAMOS INDO DE VOLTA PRA CASA” me vem a certeza do nosso reencontro, que sabemos ser verdade única.

“QUANDO PENSO EM ALGUÉM, SÓ PENSO EM VOCÊ” e certamente é isso que alavanca nossa caminhada e a continuidade dos nossos sonhos e planos.

E AÍ, ENTÃO, ESTAMOS BEM...

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

3.11 Cama de mãe- quente e colhedora

 



Aproveitei muito a cama da minha mãe. Na infância meu pai viajava muito para comprar gado. Ficava dias fora de casa e só voltava quando conseguia fechar a carga do caminhão.

Ele ia passando pelos sítios e fazendas comprando os animais e isso demorava dias. Mais tarde, ele continuou ficando fora por dias para cuidar do sítio. E ela ficava ali cuidando de nós, da casa, das coisas do meu pai.

Nessas ocasiões eu dormia na cama da minha mãe. Ah como era bom! Uma sensação de proteção, de proximidade, de inteireza. Os cheiros ainda me chegam quando os pensamentos migram  para aquele tempo, assim como as sensações boas que eu sentia.

Às vezes ríamos muito de alguma situação lembrada ou comentada. Dava crise de risos e o sono até ia embora. Quando uma aquietava, a outra recomeçava a rir. Demorava muito para o sono reaparecer.

Naquela época eu não tinha dimensão do quão forte e corajosa ela era. Sozinha, cuidando dos quatro filhos e suas demandas, da fazenda que meu pai administrava e até dos funcionários.

Mais tarde, nos mudamos da fazenda, mas meu pai continuava indo para o sítio, então algumas vezes,  ela ia dormir em casa e na minha cama. Sua companhia me fazia matar a  saudade da infância. Quando a luz apagava eu ficava de olhos abertos, lembrando dos tempos passados em que eu era apenas uma menina cheia de sonhos e desejos por realizar.

 Nessa época eu já era mãe e dormíamos as 3 na mesma cama. Vivência que não tem preço que pague. E eu tinha ali naquele pequeno espaço retangular, as duas pessoas mais importantes da minha vida. Eu tinha tudo que precisava ali. O mundo podia até parar...


sábado, 7 de setembro de 2024

3. 10 E o que a gente vira quando vai embora de alguém?

 



 

E o que a gente vira quando vai embora de alguém?

E senhô respondeu:

- Uns viram pó - outros caem, igual as estrelas lá do céu. Alguns só viram a esquina - mas, tem uns que nunca vão embora...

- Não!? E eles ficam donde, senhô?

- Ficam num lugar chamado saudade..."

(Caio Fernando Abreu)

 

Ah esse lugar chamado saudade!!

Se eu fosse descrevê-la seria um lugar fechado, pequeno e acinzentado cheio de pontinhos que tornam-se brilhantes quando uma recordação amorosamente interrompe a vida compromissada e nos permite um devaneio.

É assim...  Quando nos distraímos da correria e  das exigências diárias, as interrupções saudosas se permitem chegar através de uma música, de um cheiro, de uma comida, uma peça de roupa ou um objeto trazendo a presença de quem jamais iremos esquecer.

E quando entro nesse espaço chamado saudade inúmeras luzes se acendem. Outro dia, caminhando, num desses devaneios, acendeu a luz da lembrança da minha mãe e dos muitos brinquedos extraídos da natureza que ela inventava para nós.

Ao ver vários pequenos cones caídos dos eucaliptos saltaram em minha memória as pulseirinhas e colares feitos por ela para nos entreter e estimular, usando linha e agulha.

Outro brinquedo que me lembro, quase toda vez que descasco uma laranja é das dentaduras feitas das cascas. Era só cortar uma tirinha, picotar em zigue-zaque que os dentes estavam formados e a gente brincava e ria muito.

E como não lembrar do jogo “ 5 marias” feito com pedrinhas ou saquinhos de arroz costurados?  A foto que acompanha este texto mostram as 5 Marias feitas por ela para minha filha.

E o que falar da peteca de palha de milho sendo arremessada de um lado para o outro sem dó nem piedade?

Esse lugar chamado saudade, feito carrossel vai girando e trazendo as memórias de dias ora quentes, ora frios,  noites iluminadas por conversas entusiasmadas entardeceres despretensiosos, quando  vivíamos sem nos preocupar com o fim que poderia um dia, remotamente chegar.

O fim era longínquo. Parecia que tínhamos a vida sob controle na palma da mão.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

3.9 Minha herança

 3.9- Minha herança

 

“...Tempo que não volta
O vô e a vó conversando e nós correndo em volta
Ficar até tarde acordado escutando história
Daria todo o meu dinheiro pra ter isso agora
Coisas que vivem pra sempre na minha lembrança
Essa é a minha herança...”

Trazendo aqui hoje um trecho da música “Herança” da Ana Castela que mexe com meu coração imensamente, e não sou capaz de ouvir sem chorar de saudade, de desejo de voltar no tempo.

A música sempre foi um canal de comunicação potente que nos leva e traz para onde o coração e a mente estão.

Nessa balada nostálgica e melancólica revivo momentos significativos da minha história passada e também recente.

Ah a nostalgia!

Esse sentimento que faz com que  lembremos dos momentos vividos e fiquemos desejos do seu regresso, mas com uma visão idealizada, pois não pode se realizar fisicamente.

A nostalgia nos traz sensação boa, que também vem acompanhada da tristeza daquilo não pode se repetir novamente.

Ah tempo que não volta!

Tempo que encapsula o vivido intensamente envolvendo as recordações em fios de ouro.

Tempo que permite escavações profundas, deliciosamente memoráveis.

Esse apego ao passado que revive coisas boas muitas vezes nos faz desejosos de querer ficar por lá, sem voltar ao agora. Mas em curto tempo, voltamos para a realidade presente e temos que seguir apenas com as memórias.

Heranças valiosas que nada suprime, ninguém se apossa, nem se pode emprestar, e que sabiamente nos mantém em prumo e sustentam nossa vitalidade.

 

 

 


 

domingo, 7 de julho de 2024

3.8 conexão com a eternidade




Dias atrás, ao ver uma foto no grupo da família respondi,  “o próximo texto em reverência à minha mãe está escrito nesta imagem!

E hoje estou aqui para transcrevê-la.

No texto anterior, falei do orgulho que minha mãe sentia  em cada sucesso obtido por uma ou outra pessoa  da família.

Falei que a sua torcida para sermos bem sucedidos era sentida intensamente  e que ainda hoje,  mesmo estando em outro plano, recorremos à  sua proteção. 

A história da foto é que meu irmão e seus dois filhos são apaixonados por futebol. Vivem o mundo futebolístico, incansavelmente.

Professor na Escolinha de futebol, meu irmão Dene, prepara suas aulas com muita dedicação, é muito empenhado no aperfeiçoamento dos alunos e  é querido por pais e atletas.

Meus dois sobrinhos nasceram com a bola nos pés e são craques nessa arte. Deram muito trabalho para a vó Nair, que precisava jogar bola com eles, fosse no quintal da casa, no tapete da sala ou na mesa da cozinha usando com os cards e as peças do futebol de botão.

Cresceram.

Vitor jogou em vários times na cidade e fora dela. Especializou-se em ser goleiro. Hoje, como o pai, cursa a faculdade de Educação Física e já trabalha na área esportiva.

Bruno, lateral esquerdo ágil, astuto, tem estilo próprio e é maroto nos movimentos com a malícia no ponto certo. Tem a famosa “ginga” tão esperada nos jogadores.

Sempre nas finais de campeonatos, levam a família toda para torcer por eles.

Na foto vemos os três, festejando conquistas e  reverenciando a Dona Nair que creem estar sempre por perto, na sua missão protetora contínua.

Neste ato de mantê-la inesquecível, conservam os vínculos e a conexão  com a sua eternidade.Legitimam os sentimentos e a trazem para perto através dessa linguagem de amor.

E assim conectam o nosso wi-fi com o céu.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Colo que é imensidão



O seu perdão chegava sempre, mesmo que não o pedíssemos formalmente. Era sentido, consentido, confirmado, congraçado.

Não pedia prova de amor, mesmo quando éramos rebeldes, rancorosos, inadequados, egoístas, vingativos, arrogantes, impacientes... A lista é longa... Não para aqui.   Era a própria prova de amor.

Sua torcida para sermos bem sucedidos era sentida, notada, absorvida  fosse pelas orações, fosse pelo “vai com Deus”,  fosse pelo olhar na despedida na portão. Ainda hoje é captada e muitas vezes a buscamos recorrendo a sua bondade, mesmo estando em outro plano.

Seu orgulho em cada sucesso obtido por um ou outro  membro da família era contagiante.

Sempre estava conosco nos melhores e nos piores momentos.  Nos melhores momentos nos transmitia conforto, maravilhamento, sorte, contentamento. Nos piores, se montava de forte,  silenciava e  trancava a dor no sótao para mais tarde senti-la sozinha. 

Seu amor nunca nos abandonava.

O seu colo era uma imensidão, nele cabia o mundo inteiro quando ele desabava em nossas cabeças ou corações. 

Nessas ocasiões, não podíamos imaginar como seria passar pelo dia mais triste das nossas vidas, sem seu colo quente para amenizar nosso sofrimento e acalentar nossa alma desolada.

Tivemos que voltar para a casa órfãos, despedaçados, prostrados sem perspectiva de quando iríamos nos levantar novamente.

A dor mais doída que sentimos na vida, vai e volta, sangra e cicatriza, enche e esvazia, vai pra longe e chega perto,  diminui e fica abundante, enfraquece e potencializa.

E assim correm os dias.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

3.6 Flores que nascem por dentro


 3.6 Flores que nascem por dentro


Outro dia li que  os figos têm suas flores nascidas por dentro e isso me intrigou. Encontrei poesia nesse conhecimento.

Achei tão poético que consegui relacionar a informação com a vida da minha mãe. O figo é, na verdade, uma flor invertida, que floresceu internamente.

Então, quando comemos figos estamos  comendo flores amadurecidas que o tornam do jeito como conhecemos.

Simbolicamente costumamos dizer que uma pessoa é uma flor pela sua delicadeza, beleza, suavidade, naturalidade, encanto. Seus gestos traduzem essas características e fazemos tal relação. 

Assim era minha mãe Nair. Já enxergávamos  externamente  muitas  flores nela,  em cada gesto, cada cuidado, cada fala mansa. Tinha dias que era roseira. Em outros  era orquídea. Ainda podia ser  uma margarida ou tulipa. Uma samambaia ou girassol.

E ainda, metaforicamente falando consigo ver suas flores internas. Como o figo também fora polenizada  pelas “vespas” da vida, advindas das  dificuldades e provações  que fizeram com que tivesse  desenvolvido lindas flores por dentro.

Flores amadurecidas viraram confiança, bondade, tolerância, amorosidade, honra, humildade, valentia e tantas outros enfeites primorosos.

E aqui, escrevendo entendo porque o doce de figo feito pela minha mãe era um dos meus preferidos. Aqui, recordo a colheita e o preparo  minucioso  que ainda enlaçam meu desejo de experimentar o doce das verdes frutas que me ajudam a acalmar a saudade dela.

Ainda posso lembrar do quanto me lambuzava naquela delícia tão peculiar e adoçada numa medida  acariciante e amorosa.

Fica aqui a lição de que as “vespas” da vida não nos autorizam a nos tornarmos  secos ou duros por dentro.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

3.5- Saudosos de amanheceres mais ensolarados.


 

Vez ou outra, ainda sou invadida por um turbilhão de emoções quando lembro da sua partida. Os olhos lacrimejam e quando vejo,  as lágrimas rolam feito cachoeiras salgadas pelo meu rosto.

E no dia 7 de cada mês, sento para colocar minhas emoções no papel, esperando com isso preencher um pouco do vazio instalado por aqui.

Ainda sinto parte dos dias acinzentados, saudosos de amanheceres mais ensolarados.

Ainda busco palavras para confortar aquilo que nos desconforta, desconsola.

Ainda vejo suas mãos sábias em tantas coisas que ficaram aqui, entristecidas da sua ausência.

Ainda ouço sua voz em  preces e bênçãos amorosas  em cada aniversário, data festiva ou reunião em família.

Tantas novidades, novos acontecimentos, mudanças, reorganizações.  O que diria? Que conselhos daria? Que verdades não economizaria? Que atitudes tomaria?

Fazer a transposição da saudade , acomodando o espaço da falta que nada preenche é doído, sempre.

Difícil deslocar,permutar, transferir a saudade, se ainda é presença latejante.

Talvez, dia após dia, chegue o momento de conseguir driblar o sentimento, enganando ou trocando de endereço talvez.

 

domingo, 10 de março de 2024

3.3 Guarda-me um lugar à tua beirinha!


 DIA 7

3.3

Adaptado de Marisa Sousa 


Vou contar-te um segredo, mãe:

Ainda sinto as tuas mãos a acariciarem a minha alma, como daquelas vezes em que eu rompia com as esferas do tempo e embarcava nas brincadeiras sem ocaso.


Ainda oiço as tuas gargalhadas quando eu contava uma daquelas piadas, que só tu rias...

Ainda hoje vejo aberta a porta cinza que estava sempre escancarada para todos os teus netos.


Ainda sinto o paladar dos petiscos que fazíamos na tua cozinha mágica, com as tuas panelas abençoadas, das quais saíam verdadeiros manjares.


Sabes, nunca provei sabor igual.

O tempo já não é o mesmo.


E, à noite quando me sento a olhar para as estrelas, alcanço-te em cada uma delas. Pisco o olho e digo-te:

- Estás tão bonita hoje, Nair!


Guarda-me um lugar à tua beirinha! 


Que guardo-te em mim,  até lá!

5.8 - Você nunca caminha realmente sozinho

Li outro dia: “A ciência confirma, você nunca caminha realmente sozinho. As células da sua mãe vivem dentro do seu coração e do seu cérebro ...